A Performance Energético-Funcional no Futebol

Introdução

Diz-se, frequentemente, que conforme se quer jogar assim se deve treinar, o que sugere uma relação de interdependência e reciprocidade entre a competição e a preparação. Aliás, o princípio da especificidade preconiza que sejam treinados os aspectos que se prendem directamente com o jogo (estrutura do movimento, tipo de esforços, natureza das tarefas, no sentido de viabilizar a maior transferência possível das aquisições conseguidas no treino para o contexto específico do jogo.

Pretende-se, portanto, que a preparação seja adequada, isto é, induza adaptações específicas que viabilizem uma maior eficácia de processos na competição

Os comportamentos exteriorizados pelos futebolistas durante o jogo traduzem, em grande parte, o resultado das adaptações provocadas pelo processo de treino. Por outro lado, a orientação do processo de treino decorre da informação extraída do jogo. Por isso se pretende conhecer cada vez melhor o jogo e, sobretudo, os factores que concorrem para a sua qualidade (Garganta, 1997).

Com base na análise da actividade desenvolvida durante as partidas, os investigadores têm procurado configurar o perfil energético-funcional reclamado pelo jogo de Futebol, nas múltiplas solicitações que este impõe aos jogadores.

Vários caminhos têm sido trilhados. Todavia, os mais explorados são, de acordo com a literatura: (1) a caracterização de indicadores externos: distância percorrida, duração, frequência, tipo e intensidade dos deslocamentos produzidos, repartição dos esforços e das pausas; (2) a caracterização de indicadores internos: frequência cardíaca, lactacidemia e consumo máximo de oxigénio (VO2 máx.).

Os trabalhos pioneiros foram dirigidos para a quantificação das exigências físicas da competição, determinadas a partir das distâncias percorridas pelos jogadores.

Posteriormente, o direccionamento das linhas de investigação nesta área, foi alargando o seu âmbito, evoluindo, da determinação das distâncias percorridas, para a denominada análise do tempo-movimento (do inglês time-motion analysis), através da qual se procura identificar o número, o tipo e a frequência das ações realizadas pelos jogadores ao longo de um jogo.

Para além do reconhecido trabalho de Reilly & Thomas (1976), vários estudos se situam claramente nesta perspectiva (Withers et al., 1982; Bangsbo et al., 1991; Pirnay et al., 1991; D´Ottavio &Tranquilli, 1992; Rebelo, 1993).

Paralelamente, alguns autores têm procurado descrever outra faceta do jogo de Futebol a partir da avaliação de indicadores internos, de âmbito biológico, nomeadamente, a frequência cardíaca, a concentração de lactato sanguíneo e o VO2 máx.

Nalguns casos, como referem Mayhew & Wenger (1985) e Ohashi et al. (1993), a caracterização do esforço é realizada duma forma indirecta e, não raras vezes, os dados resultantes da avaliação de indicadores externos da atividade do jogador (distâncias percorridas, tipo, número e frequência de tarefas motoras realizadas) são utilizados para, a partir deles, se inferir o comportamento de variáveis individuais de âmbito fisiológico que se supõe influenciarem o rendimento.

Atividade energético-funcional específica do futebolista

As exigências energético-funcionais do Futebol têm sido avaliadas a partir da atividade desenvolvida pelos jogadores durante as partidas.

O jogo de Futebol, porque constitui uma alternância de esforços e acções de diferente forma e intensidade, é considerado um desporto intermitente. Os jogadores realizam esforços aleatórios de duração e intensidade variável, ocorrendo fases de intensa participação (sprints, saltos, tackles, remates, ...) entrecortadas por períodos de menor intensidade (marcha, corrida de baixa intensidade, ...).

Estas ações variadas de ritmos descontínuos implicam que os jogadores desenvolvam períodos com intensidade variável, cuja relação se altera consoante:
· o nível de jogo: nos jogos da 1ª divisão ocorrem mais períodos de intensidade elevada do que nas divisões inferiores (Whitehead, 1975);
· o modelo e estilo de jogo: as equipas inglesas realizam mais períodos de intensidade elevada do que as equipas suecas (Ekblom, 1986);
· as funções que o jogador desempenha na equipa: os avançados e os defesas centrais executam mais ações explosivas (saltos) do que os outros jogadores (Reilly & Thomas, 1976; Withers et al., 1982).


Indicadores externos

Distância percorrida
A distância total percorrida pelos jogadores no decurso de um jogo é considerada uma medida da produção de trabalho mecânico, o qual está diretamente relacionado com o gasto de energia (Reilly & Thomas, 1976).

A literatura disponibiliza um conjunto de valores de referência provenientes de estudos sobre esta temática.

Conforme se pode verificar, o Quadro 1 apresenta valores que oscilam entre 1600 e 17000 metros, o que denota uma elevadíssima amplitude de variação.

As diferenças observadas são frequentemente atribuídas à utilização de diferentes métodos de observação (Ekblom, 1986; Tumilty, 1993; Rico, 1994). Contudo, o progressivo refinamento e uniformização dos meios e métodos de observação têm levado os autores a atribuirem as causas de tais diferenças a outras razões: (1) prática de diferentes estilos de jogo (Bangsbo, 1993); (2) nível competitivo (Ekblom, 1986; Bangsbo, 1993); (3) aspectos tácticos particulares do jogo (Bangsbo, 1993; Reilly, 1996); (4) diferentes funções que os jogadores desempenham dentro da equipa (Christiaens, 1966; Reilly & Thomas,1976; Dufour,1983, Withers et al., 1992); (5) aspectos do envolvimento, como por exemplo as condições climatéricas (Ekblom, 1986).

Salvaguardando a influência de diversos factores condicionantes, pode dizer-se que a distância coberta pelos jogadores de Futebol se situa, em média, entre os 7000 e os 12000 metros. Todavia, convém ter presente que a repartição das distâncias pelos jogadores, de acordo com a sua função, não é equitativa. Os jogadores que atuam no meio-campo são os que percorrem maiores distâncias (10000-12000 metros), logo seguidos dos avançados (8000-9000 metros), dos defesas laterais (7000-8000 metros) e dos guarda-redes (4000 metros).

Contudo, pelas razões apontadas anteriormente, estas distâncias deverão ser entendidas como referências de grande labilidade.

 Tipo e intensidade dos deslocamentos

Como refere Ekblom (1986), a diferença fundamental entre equipas de diferente nível não é a distância percorrida pelos seus jogadores durante o jogo, mas a percentagem dessa distância coberta com elevada intensidade. Os jogadores de nível competitivo mais elevado empregam uma percentagem maior do tempo total da partida correndo a velocidade maximal.

No que se refere à percentagem da distância total coberta em intensidade maximal, os autores não são unânimes: 10% (Talaga, 1985), 18.8% (Withers et al., 1982), 20% (Saltin, 1973), 25% (Lacour & Chatard, 1984). Contudo, alguns estudos (Reilly & Thomas, 1976; Yamanaka et al., 1988; Bangsbo, 1993) revelam que, em média, e tendo como referência o tempo total de jogo, os futebolistas estão parados ou a caminhar entre 55 e 60% (50 a 55 minutos); correm a ritmo moderado durante 30-35% (25 a 30 minutos); correm a velocidade quase máxima durante 3-6% (3-5 minutos); e correm a velocidade maximal durante 0.5-2% (22 a 170 segundos).

Quer isto dizer que numa partida de Futebol o jogador está parado ou realiza corridas com intensidade submaximal, 80-85% do tempo total de jogo. Todavia, estes valores diferem quando se considera o estatuto posicional e funcional de cada jogador (Yamanaka, 1988). Por exemplo, os avançados cobrem uma maior percentagem da distância em sprint, quando comparados com os outros jogadores, enquanto que os defesas centrais cobrem a maior parte da distância com deslocamentos laterais e à rectaguarda.

É conveniente referir que, embora as atividades desenvolvidas que reclamam a expressão de velocidades maximais ocupem um volume temporal relativamente reduzido, elas revestem-se de uma importância fundamental, na medida em que se constata que a maior percentagem das acções críticas ou decisivas do jogo (remates, desmarcações, saltos, acelerações, mudanças de direcção e sentido, ...), são executadas de forma explosiva, portanto, com elevada velocidade.

Duração das acções. Repartição dos esforços e pausas


No Futebol não é possível estandardizar as acções dos jogadores e muito menos a sua sequência. Não obstante, a natureza intermitente do esforço reclamado aos jogadores conduz a que o estudo da repartição dos esforços e das pausas ao longo duma partida de Futebol constitua um conjunto de referências a ter em conta na modelação do treino.
Alguns autores (Mayhew & Wenger, 1985; Mckenna et al., 1988) têm recorrido a um artifício metodológico que consiste em identificar os períodos de esforço (trabalho) com as ações de alta e média intensidade e as pausas (recuperação) com as situações de parado, marcha e acções de baixa intensidade. Os mesmos autores referem que as ações de alta e média intensidade cobrem cerca de 10% do tempo total de jogo (8-9 minutos) enquanto que as ações de baixa intensidade ocupam cerca de 90% do tempo total de jogo (80 minutos).
Contudo, tem-se verificado uma gradual mas significativa diminuição do tempo útil de jogo (do México/70 até Itália/90 diminuiu, em média, cerca de 10 minutos) o que se traduz em mais e/ou maiores intervalos de recuperação entre as fases ativas do esforço, fato que tem permitido um aumento da intensidade nas fases ativas do jogo (Pinto, 1991).

A relação, entre períodos de trabalho e de recuperação é de 1 para 7 (Rahkila & Luhtanen, 1991; Rebelo, 1993) e entre movimentos de marcha, deslocamentos de baixa intensidade e deslocamentos de intensidade maximal é de, respectivamente, 3:5:1.

Importa, no entanto, registrar que a relação entre os períodos de intensidade variável, desenvolvida pelos jogadores durante o jogo, se altera consoante as configurações que o jogo vai assumindo ao longo da partida.

Indicadores internos

Frequência Cardíaca (FC)
A FC é um parâmetro frequentemente utilizado como indicador da intensidade do esforço e como medida indireta do custo energético da atividade física (Solomonko, 1979).

Todavia, à elevação da FC nem sempre corresponde o aumento da intensidade do esforço. Numa situação de stress ou de inadaptação ela pode atingir valores elevados sem que a isso corresponda qualquer aumento do esforço produzido (De Bruyn-Prevost & Thillens, 1983; Vogelaere, 1985). Quer isto dizer que atividades formalmente semelhantes realizadas em condições diferentes, por exemplo nas situações de treino, jogo particular ou jogo oficial, podem ter reflexos diferentes na FC.

A labilidade deste indicador pode ainda ser atestada por um conjunto de factores que se sabe afectarem a sua expressão: idade do sujeito, estado de treino, tipo de esforço, fases do jogo, condições ambientais (temperatura, estado do terreno de jogo e nível competitivo, entre outros (Ekblom, 1986; Soares, 1988; Bangsbo, 1993; Janeira, 1994).

A frequência cardíaca máxima (encontrada a partir da fórmula: 220 - idade) apenas é atingida em algumas fases do jogo que, correspondem a períodos de intensidade elevada (Lacour & Chatard, 1984).

ao longo do jogo, a FC situa-se à volta de 85% da FC máxima (Agnevik, 1975; De Bruyn-Prevost & Thilens, 1983; Ekblom, 1986), registrando-se, uma média de valores que oscila entre 160 e 180 batimentos por minuto (Reilly & Thomas, 1979; De Bruyn-Prevost & Thilens, 1983; Purcell & Boyd, 1986; Van Gool et al., 1988; Pirnay et al., 1991; Maréchal, 1996).
Não obstante estes valores de referência, constata-se que os futebolistas registam claras diferenças interindividuais no que se refere aos valores da FC, o que não se deve unicamente à condição física, mas a fatores como a motivação (Bangsbo, 1994), o estatuto posicional/funcional e outros condicionalismos táticos (Van Gool et al., 1988; Bangsbo, 1994).

Deste modo, não obstante a larga utilização da FC, a interpretação dos seus valores deve ser realizada com cuidado (Janeira, 1994).


Consumo máximo de oxigénio (VO2 máx.)

O consumo máximo de oxigénio é um parâmetro utilizado para avaliar, não tanto a intensidade do esforço, mas sobretudo a capacidade aeróbica de trabalho dos futebolistas.
Contudo, a avaliação do VO2 máx. é habitualmente realizada em condições que não se assemelham, no essencial, à atividade que o jogador desenvolve em jogo (Ekblom, 1986), pelo que torna abusiva a predição do comportamento deste indicador na competição ou a definição de um qualquer perfil.

Sabe-se que o VO2 máx. não constitui um fator preponderante no desempenho de um futebolista (Faina et al., 1986), pois a sua capacidade de trabalho não é necessariamente condicionada por este parâmetro (Bangsbo & Mizuno, 1988).

Os resultados encontrados em jogadores de alto nível revelaram que estes não possuem um VO2 máx. excepcional, nem mesmo quando comparados com indivíduos não atletas, possuidores de uma condição física razoável (Jousselin et al., 1984; Faina et al., 1986; Rhodes et al., 1986; Vanfraechem & Thomas, 1993).

 Todavia, este entendimento não é consensual. Autores como Rochcongar et al. (1981), Lacour & Chatard (1984) e Apor (1988), sustentam que existe uma relação directa entre o nível de preparação do jogador e o respectivo valor de VO2 máx.

Não obstante, o VO2 máx. parece constituir um argumento que beneficia a prestação do futebolista duma forma indireta, na medida em que, ao viabilizar uma recuperação mais rápida entre esforços, retarda o aparecimento da fadiga (Santos, 1995) e permite ao atleta manter o desempenho recorrendo a elevadas intensidades (Tumilty, 1993).

jogadores de Futebol revelam claras diferenças, correspondendo a cifras que oscilam, em média, entre 46.2 e 71 ml/kg/min.

A disparidade entre alguns destes valores parece decorrer da utilização de diferentes protocolos de avaliação e ergómetros utilizados (Ekblom, 1986; Janeira, 1994).

Contudo, grande parte das diferenças deve ser também atribuída à variabilidade de situações inerente a aspectos tácticos do jogo (Bangsbo, 1993), nomeadamente ao estatuto posicional e às funções específicas dos jogadores, bem como ao estilo e métodos de jogo adoptados pelas equipas (Reilly, 1996). Sabe-se, por exemplo, que os médios e os defesas laterais registram normalmente os valores mais elevados de VO2 máx., e que os mais baixos são obtidos pelos avançados e defesas centrais (Van Gool et al., 1988; Bangsbo, 1993; Puga, 1993; Rodrigues dos Santos, 1995; Santos, 1995).

Toda esta labilidade explica, em grande parte, a razão porque não tem sido atribuída grande atenção aos valores do VO2 máx. em modalidades cuja estrutura é fortemente determinada por condicionalismos técnicos e tácticos (Janeira, 1994).

Concentração de lactato sanguíneo

Alguns autores estimam que a intensidade média de uma partida de Futebol corresponde a 75-80% do VO2 máx. (Ekblom, 1986) o que indicia que os processos aeróbicos predominam sobre os anaeróbicos (Pirnay et al., 1991; Maréchal, 1996).

Todavia, esta predominância parece situar-se apenas no plano quantitativo, na medida em que são as ações curtas e de intensidade maximal (saltos, sprints, acelerações, remates, etc.) que mais claramente se revelam como factores perturbadores da dinâmica do jogo, induzindo desequilíbrios no balanço ataque-defesa.

Deste modo, as fases menos intensas e mais frequentes (aeróbicas) funcionam como "pano de fundo", enquanto que as fases curtas e mais intensas (anaeróbicas), embora menos numerosas, configuram, qualitativamente, as "fases críticas" do jogo.

A participação do metabolismo anaeróbico durante uma partida de Futebol fornece uma idéia acerca da intensidade do esforço produzido (Ekblom, 1986). Ela pode ser estimada a partir do estudo da evolução da concentração de lactato no sangue (Ferret et al., 1980; Bangsbo, 1993).

Autores como Faina et al. (1986), Grosgeorge (1990) e Maréchal (1996) consideram que, dadas as características do esforço em Futebol - acções pouco intensas e repetidas, alternadas com ações explosivas, curtas, de intensidade maximal - o metabolismo anaeróbico láctico parece não desempenhar um papel importante.

Contudo, no Futebol, o papel deste tipo de metabolismo não está ainda totalmente clarificado (Tumilty et al., 1988). Outros autores consideram que o futebolista deve ser capaz de suportar consideráveis concentrações de ácido láctico no sangue, porque tem que responder a esforços que, embora curtos, se repetem, entrecortados por recuperações incompletas (Mercier, 1981; Mayhew & Wenger, 1985; Colli et al., 1988).

No entanto, de acordo com os valores médios de lactacidemia medidos, por diferentes autores, em futebolistas, os resultados variam visivelmente.

As diferenças para tais resultados parecem radicar, sobretudo: (1) na diferente capacidade de cada jogador para oxidar o lactato produzido (Bangsbo et al., 1991); (2) nas características dos esforços que antecedem o momento da recolha da amostra de sangue (Soares, 1988; Bangsbo, 1993); (3) nas diferentes atribuições tácticas dos jogadores (Gerish et al., 1988); (4) no ritmo de jogo (Tumilty et al., 1988).

Sabe-se, por exemplo, que existe uma correlação positiva entre os valores de lactacidemia e a quantidade de deslocamentos de alta intensidade realizados no jogo (Bangsbo et al., 1991). Todavia, o lactato é constantemente removido e metabolizado durante as fases menos intensas do jogo (Van Gool et al., 1988).

Dado que a relação aleatória entre períodos de maior e menor intensidade é determinada pelas sucessivas configurações e atribuições tácticas que se perfilam no decurso de um jogo, os resultados obtidos só podem ser interpretados duma forma pertinente e ajustada se referenciados aos contextos tácticos que motivaram a sua expressão.

Aliás, o estudo de Gerish et al. (1988) ilustra um modo de analisar o comportamento de variáveis fisiológicas ao longo do jogo, no caso a concentração de lactato, em relação com as atribuições tácticas e o estatuto posicional dos jogadores.


Jogador de Futebol: que perfil?

O Futebol praticado ao mais alto nível evidencia alterações qualitativas importantes, sobretudo no que se refere ao aumento da efetividade das ações de jogo. Neste quadro, tem sido atribuído aos jogadores um papel cada vez mais importante, nomeadamente no que diz respeito à crescente autonomia e nível de preparação que as exigências do jogo reclamam.

Num artigo de revisão intitulado Características fisiológicas dos jogadores de futebol de elite, Tumilty (1993) conclui que continua por determinar o perfil óptimo do jogador de Futebol e aponta como factores condicionantes: a variedade de testes utilizados; as inerentes dificuldades na comparação de resultados; e os problemas metodológicos que se colocam quando se pretende estudar uma modalidade tão complexa.

Todavia, em face das posições sustentadas por diversos autores, permitimo-nos deduzir que se afigura ficcionista a procura de um perfil óptimo de jogador de Futebol in abstracto, isto é, à margem dos condicionalismos estratégico-tácticos do jogo.

Diríamos, portanto, que o problema parece situar-se, não tanto ao nível da variedade dos testes e das metodologias utilizadas, mas sobretudo na ausência de um esforço integrador que perspective o padrão de atividade do jogador em referência ao distintos enquadramentos tácticos que o motivaram, porquanto dessas dissemelhanças resultam diferentes exigências, diversas formas de jogar, portanto, "perfis" distintos.

Nalgumas posições, anteriormente referidas, está implícita a limitação da validade ecológica dos estudos face ao artificialismo do seu enquadramento. Contudo, como foi possível constatar, alguns autores revelam conhecer as limitações dos dados dos seus estudos, facto que pode ser ilustrado pela prudência com que formulam as respectivas conclusões.
A análise de indicadores, como por exemplo a distância percorrida, ou a concentração de lactato sanguíneo, adquirem sentido quando perspectivadas no quadro do cumprimento de tarefas tácticas particulares.


A finalidade táctica da performance no Futebol

Não obstante a proliferação de estudos com as características dos que neste artigo mencionamos, alguns dos seus autores têm alertado para a debilidade dos resultados deles decorrentes e para a inconsistência das conclusões, porquanto não são claramente consideradas as peculiaridades táticas do jogo, nomeadamente o estilo e os métodos de jogo (ofensivos e defensivos) utilizados, nem as funções desempenhadas pelos jogadores no quadro dos respectivos sistemas táticos utilizados.

Investigadores, como o britânico Reilly (1994, 1996), o dinamarquês Bangsbo (1993) e os alemães Liesen & Muecke (1994), notabilizados através dos seus estudos no âmbito da fisiologia do Futebol, alertam para o fato das exigências colocadas ao nível da atividade do jogador de Futebol decorrerem, em larga medida, do nível da competição e das imposições táticas (estilo de jogo, posição/função do jogador).

Brettschneider (1990) alerta quem pretender analisar os jogos desportivos e a prestação dos jogadores, para o fazer através da análise do contexto no qual ocorrem as acções, não se devendo limitar a aspectos isolados.

Mesmo as características do esforço realizado pelo jogadores de Futebol, a partir da recolha de imagens e posterior análise em vídeo, remetem para o facto da interpretação dos resultados assim obtidos depender fortemente das funções específicas dos jogadores e das características do jogo, bem como da concepção táctica das equipas em confronto (Soares, 1993).

Isto implica que, como refere Van Lingen (1992), qualquer pessoa que ensine, treine ou investigue no âmbito do Futebol, deva conhecer o jogo ·por dentro·.

Como foi já mencionado, o que diferencia o nível dos jogadores e das equipes, no que respeita à atividade realizada durante uma partida de Futebol, não é tanto o número de ações, mas fundamentalmente a intensidade com que elas são desenvolvidas (Palfai, 1979; Ekblom, 1986). Todavia, a intensidade com que um jogador executa as ações no jogo, depende, por um lado, da forma como ambas as equipes em confronto condicionam o ritmo do jogo, e, por outro, da qualidade das escolhas e das opções táctico-técnicas efetuadas pelo jogador no seu decurso.

Ao longo da história do Futebol, as equipes inglesas sempre foram consideradas "modelares" no plano atlético, nomeadamente pelas elevadas intensidades de esforço desenvolvidas pelos seus jogadores no decurso do jogo de Futebol (90 minutos). No entanto, os resultados desportivos obtidos ao nível internacional, essencialmente a partir dos anos setenta, deixaram, desde logo, perceber que as exigências do jogo de Futebol caminhariam mais no sentido de reclamar inteligência (adaptabilidade) aos jogadores, do que força, resistência ou velocidade, entendidas como capacidades autônomas.

Weissweiler (1977), outrora treinador de equipas de renome internacional, como o Borussia de Moenchengladbach, o Colónia e o Barcelona, afirmava que as equipes inglesas do momento incorriam em repetidos insucessos desportivos, pelo fato de exacerbarem a combatividade e a componente física, em detrimento daquilo que designava por "arte de jogar". Actualmente são já várias as discordâncias provindas do contexto futebolístico inglês, contra o designado futebol de kick and rush, no qual se abusa do designado estilo de jogo direto1.

O Futebol praticado ao mais alto nível, é caracterizado por requerer um ritmo muito elevado (Olsen, 1988) e por reclamar dos jogadores um empenho permanente. Todavia, o significado de características como esta pode ser destorcido, quando se atribui às capacidades motoras um estatuto de autonomia à margem do contexto tático que as reclama.

Como diz Van Lingen (1992), quando, tentando analisar alguns aspectos do Futebol, falamos em velocidade ou em potência, não conseguimos um aporte de informação importante para melhorar a qualidade do treino e do jogo. A velocidade, por exemplo, está sempre relacionada com os companheiros e os oponentes. É sobretudo uma velocidade tático-técnica. Daí a sua dificuldade de avaliação.

Atualmente sabe-se que não é apenas na forma, mas também no ritmo de execução das habilidades técnicas, que os jogadores mais talentosos se distinguem dos demais (Mercier, 1979). A velocidade das ações do jogador adquire sentido quando relacionada com a velocidade de jogo, isto é, com a interação de várias formas de manifestação parcelares que se entrecruzam e que vão desde a velocidade mental (Cianciabella, 1995) até à velocidade de deslocamento e de execução, numa interacção recorrente entre colegas e concorrente entre adversários.

Neste contexto, a compatibilização da velocidade com a precisão parece ser um problema importante. Já em 1951, Gibbs demonstrou que existe uma correlação negativa entre velocidade e precisão, observação que se aplica ao Futebol, onde, jocosamente, se costuma dizer que alguns jogadores quando pretendem jogar muito depressa se "esquecem" da bola (Dugrand, 1989).

Sabe-se desde 1942, com Fulton, que o nível de precisão adquirido a baixa velocidade decresce rapidamente quando esta aumenta e que, pelo contrário, quando se pede a um indivíduo, que treinou a elevada velocidade, que procure cuidar os aspectos de precisão, ele perde pouca velocidade.

Há, no entanto, que considerar a relação da velocidade das ações com a precisão e com antecipação da resposta motora decorrente dos aspectos táticos do jogo.

O Futebol em que o jogador se posicionava para receber a bola, depois observava, pensava e agia, faz pouco sentido no contexto atual. As marcações são cada vez mais pressionantes, a velocidade de jogo cada vez mais elevada, o tempo para agir cada vez mais curto, pelo que, cada vez é mais premente a necessidade de realizar a antecipação mental e motora (Serrano, 1995).

A este propósito, Bouthier (1988) sustenta que os jogadores mais experientes e os mais inteligentes se distinguem pelo apuro das capacidades de antecipação, quer na evolução das relações de oposição, quer nas escolhas táticas mais ajustadas, quer ainda na execução das correspondentes operações que viabilizem o desencadeamento dessas ações em tempo útil.

Também Ripoll (1979), comparando praticantes de Basquetebol com sujeitos não praticantes, demonstrou que os segundos, não obstante serem capazes de reconhecer uma considerável quantidade de informação sobre o jogo, ignoravam a sintaxe e
o conteúdo semântico das mesmas. Neste âmbito a capacidade de antecipação parece revelar-se um indicador fundamental para discriminar jogadores experientes ou inteligentes de jogadores principiantes ou pouco esclarecidos taticamente (Tavares, 1993).

Enquanto que as relações da velocidade com a precisão estão estreitamente ligadas às ações com bola, a antecipação decorre da "leitura" das ações dos protagonistas sobre o terreno de jogo. Segundo Dugrand (1989), existe uma relação positiva entre a velocidade e a "previsibilidade" das soluções retidas pelos jogadores e uma relação negativa entre velocidade e precisão.

No Futebol a capacidade de previsão permite que um jogador, mesmo sendo mais lento do que outro do ponto de vista neuro-muscular, possa "chegar primeiro" a um determinado lugar do terreno de jogo porque previu e antecipou a resposta. Assim, a velocidade, tal como outras capacidades motoras (e.g. resistência, força), longe de se restringir à acepção física do termo, impõe-se sobretudo como uma grandeza tático-técnica, perceptiva e informacional.

Mesmo se tomarmos como exemplo os movimentos basilares de locomoção dos jogadores, nas suas diferentes formas (marcha, trote, corrida rápida, sprint) constatamos que as razões da sua expressão se fundam numa intencionalidade guiada sobretudo por imperativos táticos. O jogador está parado, ou desloca-se para algum lugar, com maior ou menor intensidade, num ou noutro momento, em função da movimentação dos jogadores, colegas e adversários, e da posição da bola, isto é, em função das configurações do jogo. Ou seja, embora não dispensando o suprimento das exigências energético-funcionais para a sua realização, também a corrida tem uma finalidade táctica.

Conclusões

Em face do cenário apresentado, torna-se importante sintetizar alguns pontos: (1) as exigências que se colocam durante um jogo de Futebol, para a realização de vários movimentos e ações, variam consoante o estilo de jogo da equipe, a função, a zona de intervenção predominante e o nível competitivo do jogador (Reilly, 1992; Bangsbo, 1993); (2) nos jogos desportivos coletivos a capacidade funcional dos jogadores tem de estar intimamente ligada à execução técnica e à aplicação tática de diferentes elementos do jogo (Soares, 1991); (3) é no jogo que o jogador manifesta o seu nível máximo de desempenho (Van Gool et al., 1988), pelo que a preparação e o treino no Futebol não podem deixar de ter como referência o jogo de Futebol e as suas características particulares (Pinto, 1991).
Por tais razões, cada vez mais se impõe a existência de estudos cujos resultados sejam perspectivados e interpretados em função do seu enquadramento, face à atividade específica a partir da qual foram percebidos e registados.

Dos dados da investigação parece legítimo inferir que as capacidades configuradas a partir da dimensão energético-funcional, talvez a mais profusamente estudada até ao momento, não são de fato faculdades substantivas, mas capacidades subsidiárias do rendimento que apenas adquirem sentido quando enquadradas no contexto que motivou a sua expressão.
Assim, afigura-se pertinente a perspectivação do jogo e do jogador a partir de contextos nos quais a componente táctica se constitua como princípio diretor da organização do jogo, porquanto é ela que dá coerência construtiva aos comportamentos, às interações dos jogadores e que confere ou retira sentido à sua atividade durante o jogo.