Crise da concepção da periodização do treinamento desportivo.

Crise da Concepção da Periodização do Treinamento no Esporte de Alto Nível  

Nos anos 60 no esporte de alto nível a concepção da periodização de treinamento foi colocada como um princípio básico para a construção sistemática do rendimento dos atletas no esporte de alto nível. Porém esta concepção, assim como também os princípios do treinamento baseados sobre ela, perderam há tempo a sua importância, seja teórica, seja prática de existirem. E, portanto persistir ainda ancorado as suas idéias já superadas, tem demonstrado ser um fator de freio ao progresso científico no esporte. Exporemos por isso as principais causas da crise desta concepção e da necessidade do seu superamento.
1. Introdução
    Atualmente na literatura esportiva encontram-se opiniões diversas sobre o sistema de treinamento esportivo, como também concepções e escolas diversas de preparação dos atletas, natural em um fenômeno multiforme como a atividade esportiva (4, 5, 108, 111).
    Ocorre, porém, olhar com atenção duas circunstâncias: em primeiro lugar, a evidente carência de trabalhos que resumem os conhecimentos que dizem respeito aos fundamentos científicos e aos conceitos metódicos da teoria do treinamento esportivo e, em segundo lugar, a um certo conservadorismo na interpretação da idéia fundamental do treinamento esportivo e dos princípios da sua organização que é devido aos conceitos derivantes da concepção da assim chamada "periodização do treinamento", (de agora em diante CPT) cuja origem está nos trabalhos sobre a teoria do treinamento do russo L.P. Matveev.
     É evidente, há algum tempo, que a CPT nascida nos anos 60(24) e o texto "Os fundamentos do treinamento esportivo", baseado naquela concepção(26), perderam muito do seu valor teórico e prático. Atualmente, o esporte de alto nível e os métodos da preparação dos atletas de vértice sofreram modificações essenciais e impor com tenacia à prática esportiva as idéias antiquadas da CPT (27, 28) representa um fator que impede o progresso dos conhecimentos científicos no esporte (19, 23, 32, 37, 46, 111, 120). Contemporaneamente, as afirmações de Matveev de que a sua teoria teria "um reconhecimento em todo o mundo" (27, 29) não correspondem à realidade. As opiniões de um elevado número de especialistas e de treinadores confirmam o contrário e, em definitivo, são indicações da necessidade de substituir a antiga concepção da periodização com uma moderna teoria e metodologia de treinamento esportivo.
    De fato, a enorme experiência prática acumulada na preparação dos atletas de alto nível, os progressos científicos da fisiologia e da bioquímica da atividade muscular, da medicina esportiva, da biomecânica dos movimentos esportivos, e, enfim, dos estudos fundamentais sobre a metodologia do treinamento no esporte de alto nível, tem criado pressupostos objetivos para a formulação de uma moderna teoria e metodologia de treinamento esportivo e das suas principais bases cientificas. Entretanto, é necessário ter sempre presente ( e a negativa experiência da CPT o confirma) que não pode existir uma formula universal de organização do treinamento, como parecia a Matveev. Porém, existe, ou melhor, deve existir, um único modo metodológico, cientificamente argumentado, para a interpretação da essência do processo de treinamento e, portanto, também dos objetivos da teoria do treinamento esportivo, em cuja base se pode (se deve) construir o sistema concreto do treinamento em cada disciplina esportiva.
    Em um sucessivo artigo, prometemos propor à atenção dos especialistas a análise de um modelo de teoria do treinamento. Porém, visto que não se deve iniciar vida nova com um hábito velho, antes, é oportuno dedicar a nossa atenção à análise dos defeitos metodológicos e dos erros típicos da antiquada CPT, afim de que sejam evitados no futuro.

2. O problema
    Os principais conceitos metodológicos do moderno sistema de treinamento esportivo foram elaborados no inicio dos anos 50 pelos treinadores russos, estimulados pelas exigências de preparação da esquadra nacional soviética para os Jogos Olímpicos de Helsinky, em 1952 e a outras competições internacionais. Sucessivamente as experiências práticas acumuladas foram generalizadas pelo professor de teoria da educação física do instituto superior de cultura física de Moscou, L.P.Matveev, um estudioso do esporte de alto nível, e foram apresentadas na forma de teoria da "concepção da periodização do treinamento esportivo" (24). Visto que, naquela época, os problemas da teoria do treinamento não eram objeto da atenção de especialistas do setor e que os atletas russos tinham conseguido alcançar resultados importantes nas competições internacionais, esta concepção, que representava a primeira tentativa de resumir os conhecimentos acumulados no campo da teoria do treinamento realizado na União Soviética, naturalmente suscitou a atenção dos especialistas estrangeiros e por longo tempo, o seu autor foi considerado um grande teórico do treinamento esportivo.
    O conceito de periodização do treinamento foi se transformando, gradualmente, em sinônimo de planificação do treinamento, e um elevado número de especialistas e treinadores soviéticos (14) e estrangeiros (49, 55, 56, 62, 64, 65, 83, 84, 114, 117) utilizam, ainda hoje, o corpo conceptual artificioso, teórico, da CPT, procurando adaptar a essa as suas idéias sobre a organização do processo de treinamento que, normalmente, são muito mais avançadas.
    Porém, excetuando-se alguns fatores desta concepção (27, 28, 41, 56, 62, 117), a CPT não só não encontrou uma ampla sustentação da parte prática, mas foi criticada seja na ex União Soviética (12,17, 19, 21, 34, 40), seja nos outros países (54, 58, 63, 76, 79, 91, 93, 102, 103, 108, 120).
    Existem especialistas que sustentam que os conceitos antiquados da CPT não correspondem às exigências do esporte moderno (17,46, 50, 68, 69, 72, 75, 87, 93, 118), não favorecem o aumento das reservas funcionais do organismo do atleta (32, 42, 50, 92, 102, 115) e impedem o progresso do resultado esportivo (12, 15, 19, 32, 46, 92, 102). Afinal, tudo o que nos últimos anos tem provocado o afastamento dos especialistas desta concepção (46, 51, 66, 69, 87, 91, 92, 93, 102, 105, 120).
    Existem opiniões segundo as quais a CPT não representa um modelo do sistema de treinamento para os atletas de vértice e, portanto, não deve ser levada em consideração ou então modificada de acordo com as particularidades do atual calendário de competições e das tendências de desenvolvimento do esporte atual (16, 17, 69, 72, 73, 102, 120). No melhor dos casos alguns conceitos desta teoria poderiam ser utilizados nas etapas iniciais da preparação dos atletas (54, 68, 91, 93, 108).
    É importante salientar também que a sub-divisão formal, mecânica do treinamento anual em períodos e em "mesociclos", aconselhada pela CPT, não é típica da prática esportiva (17,33, 38, 41, 69, 73, 89, 108), e que os princípios da "periodização" formulados, tomando como base um estudo relativamente breve da preparação dos atletas, no período inicial da formação do sistema soviético de treinamento (anos 50) e, sobretudo, tendo como base exemplos tirados de três esportes (natação, levantamento de peso e atletismo) não podem ser nem confiáveis nem universais (32, 33, 54, 61, 108).
    Ocorre, também, salientar que o sistema de treinamento deve ser baseado não tanto sobre a lógica ou experiência empírica, mas sobre os conhecimentos de fisiologia (1, 48, 50, 58, 60, 67, 78, 90, 109).
    Em muitas publicações, salienta-se o fato de que os princípios e conselhos metodológicos da CPT não são concretos e não correspondem às modernas tendências de desenvolvimento do esporte de alto nível (66, 87, 105, 109, 118), em particular às condições reais da preparação de atletas para os jogos esportivos (3, 36, 42, 52, 70, 88, 89, 92, 97, 104, 108, 118), nos esportes de resistência (17, 46, 59, 66, 71, 74, 102, 107), na ginastica artística (2, 43), no atletismo (4, 5, 61, 80, 96) e, em outras disciplinas esportivas. Além disso, a CPT não prevê soluções metódicas eficazes para os problemas da preparação especializada para as competições e para a preparação física especifica dos atletas das diversas disciplinas esportivas (49, 50, 55, 61, 73, 86, 98, 112, 115).
    Os treinadores que operam na prática viram a inconsistência da CPT na acentuação equivocada das prioridades dos objetivos, dos princípios, das idéias e das tendências do processo de treinamento. Em vez de construir as idéias a respeito do processo de treinamento sobre a pesquisa da sua natureza biológica, esta concepção se acontenta do caráter ilusório que têm os fenômenos evidentes, bastante notos, baseando sobre estes os seus conselhos práticos (23, 32).
    A crítica maior à concepção da "periodização" provém dos especialistas dos esportes cíclicos, que chamam à atenção que os princípios antiquados desta teoria não correspondem as exigências atuais do esporte (16, 17, 32, 33, 38, 46, 66, 69, 72, 78, 118). De fato, hoje, a característica peculiar da planificação do treinamento, em particular do treinamento dos esportes de resistência, consiste em uma organização mais dinâmica das cargas de treinamento no ciclo anual e no gradual desaparecimento dos elementos da periodização tradicional (102). Porém, os próprios especialistas dos esportes cíclicos da ex-URSS, seguindo a CPT, utilizaram por muito tempo uma metodologia de treinamento superada, e isto tem impedido, há muitos anos, uma melhora dos resultados em alguns esportes de resistência. Esta metódica não é suficientemente argumentada cientificamente e, consequentemente, não é em grau de garantir uma preparação dos atletas que preveja a obtenção de resultados elevados não somente nos "picos de forma", mas por toda a estação agonística. Como se faz necessário no moderno calendário de competições (17, 32, 38, 46, 66, 69, 72, 98).
    É importante lembrar que os sucessos dos atletas africanos (principalmente os quenianos) podem ser explicados, não com o fato de que " treinam em altitude e são predispostos geneticamente", como era apregoado através dos especialistas soviéticos, mas sobretudo porque não adotaram as idéias da CPT na organização do processo de treinamento e compreenderam em tempo que: "os atletas africanos não devem copiar os atletas europeus (46, 77, 101, 108).
    Em um artigo - Periodization - plausible or piffle? o especialista australiano, Herwill analisa os motivos pelos quais a concepção da periodização baseada na teoria de Matveev não pode ser utilizada no treinamento moderno da corrida, e um outro artigo do mesmo autor desaprova " a veneração servil a respeito da a teoria da periodização típica dos corredores dos países do leste europeu" (73), afirmando que nos últimos trinta anos nem corredores soviéticos, nem do leste europeu têm melhorado records mundiais na distância de meio fundo ou ganharam medalha de ouro no jogos olímpicos, enquanto os corredores britânicos que não adotaram a idéia russa obtiveram esses sucessos. Os corredores britânicos começaram a utilizar o esquema da periodização elaborado por Matveev , após 1980, e desde então os seus resultados manifestam uma preocupante tendência a piorar.
    É interessante notar que, se nos países do leste europeu a CPT foi adotada sem hesitação, na maior parte dos outros países não foi empregada de modo assim tão amplo.
    Uma revista esportiva Italiana publicou recentemente uma entrevista com S. Zanon, um 'expert' italiano de teoria do treinamento, que, no período compreendido entre 1960 e 1980, fez conhecer ao mundo esportivo italiano um conjunto de noções que tinham sido elaboradas no campo do treinamento esportivo na URSS e nos países que se encontravam sobre a sua influência política, na qual insiste sobre a necessidade de abandonar aquela teoria, e substitui-la por uma mais adequada do ponto de vista científico (75). Zanon julga que, se a concepção do treinamento é elaborada não à base de determinantes biológicas e sim, como propõe a teoria soviética, à base de conceituações que não tem nenhuma relação com as condições reais do progresso esportivo, os programas de treinamento assumem um significado, absolutamente casual, com possibilidade muito elevada de dispersão dos talentos esportivos (75, 120). E afirma que, a teoria de organização do treinamento baseada na doutrina soviética da periodização não teria nada a ver com os resultados obtidos pelos atletas modernos, e, também, se a esta teoria se atribui o mérito dos progressos esportivos, não consegue dar provas, cientificamente convincentes desta paternidade, e nem se sente na obrigação de fazê-lo (75, 120).
    Outro teórico do treinamento, o alemão Tschiene, analisou uma série de modernas teorias de treinamento (108), notando que a concepção da periodização do treinamento não foi mudada desde o momento em que foi exposta pela primeira vez (1965), ainda que, daquele momento, a prática do esporte de alto nível tenha progredido muito e tenham sido alcançados notáveis progressos no âmbito das ciências do esporte. Muitas doutrinas de treinamento não superaram a prova e foram substituídas por outras de nova concepção, mais avançadas (109, 110). A este propósito, escreve Tschiene, é muito difícil entender porque Matveev não reconheceu ou não quis reconhecer estes processos, não obstante, já há muito tempo, fossem evidentes as dificuldades devido à utilização do seu esquema estrutural, por exemplo, nos jogos esportivos e em outros esportes. Portanto, ocorre que a teoria da periodização do ciclo anual proposta por Matveev seja modificada ou então substituída, com uma doutrina mais moderna, que tenha por base princípios mais concretos e mais argumentados, cientificamente, que prevejam o aumento do papel do exercício de competição e a individualização do treinamento, de acordo com as mudanças na prática agonística internacional.
    Na Itália o texto fundamental sobre a CPT (26) não foi somente traduzido, mas, no ano da 1978 (54), foi submetido a uma análise crítica muito seria em um opúsculo publicado e difundido às federações. E, neste, foram analisados e estudados do ponto de vista crítico, os conceitos principais da CPT para entregar ao treinador um material informativo já filtrado e adaptado às características do treinamento moderno (54). Nesta publicação são colocados em dúvida a credibilidade e a eficácia prática de uma concepção que toma por base somente dados do treinamento de nadadores, levantadores de peso e atletas de atletismo que cobriam o período entre 1950 e 1960. E salienta-se o fato que, desde 1965, data da publicação do texto de Matveev sobre a CPT, os métodos de treinamento haviam sofrido uma transformação enorme (vinte anos significam cinco olimpíadas), e com o conseqüente melhoramento de muitos records, e que houvera uma alternância entre diversas escolas no papel principal, e que estas serviam de referência aos especialistas do treinamento esportivo para modificar suas próprias idéias. Entre outras tantas observações que serão feitas neste artigo, ocorre recordar aquela sobre a artificialidade e a estrutura complexa da classificação dos diversos "micro" e "mesociclo"; e a incompreensão de que durante os diversos microciclos de recuperação do mesociclo precedente, por efeito deste, o organismo se encontra em condições de super compensação . Este estado de super compensação, porém, não é utilizado, e, isto transforma as pequenas e médias ondas da carga em uma ação caótica sobre o organismo do atleta. Em conseqüência disto, os autores chegam à conclusão que: a organização proposta por Matveev pode ser utilizada somente por atletas de baixa classificação.
    No passado, os dirigentes do esporte soviético fizeram observações ainda mais criticas no que concerne às idéias de Matveev. Assim, Koslesov, um dos maiores conhecedores de todos os problemas teóricos e práticos da preparação do esporte de alto rendimento e do valor de todos os tipos de concepção do treinamento, escreveu no jornal Sovetskij Sport do dia 24/07/91: "quem trabalha no campo do esporte de alto nível não deve seguir o sistema antiquado do nosso teórico, o prof. Matveev (20). Portanto, atualmente, a utilização da CPT dá a impressão de um relógio parado, ainda que o seu criador continue a afirmar que este relógio funcione bem porque segue as "leis da formação da forma esportiva", por ele mesmo formuladas. Matveev continua com tenacidade a não reconhecer as críticas, dizendo que os conceitos positivos da sua teoria são eficazes seja do ponto de vista teórico, seja dos aplicativos e metodológicos e que isto é confirmado pela ampla aprovação internacional (26, 28, 29).
    Ao mesmo tempo, lamenta que em algumas publicações atuais, ignorar e analisar de modo destorcido a sua teoria é quase uma moda (28). Não obstante os inúmeros convites a uma discussão útil, criativa e critica das suas idéias (28, 29) Matveev considera a CPT como uma estrada de mão única, que pode ser controlada somente por ele. Todas as tentativas de andar contra esta corrente são rapidamente freadas, sem muita cerimônia, e são definidas invenções bobas, inovações que seriam exceções a regra estabelecida pela lógica e da metodologia do conhecimento científico, contrapeso a idéias bem aceitas, ou ainda, repetições de conceitos notos há muito tempo, etc... (25, 28, 29). Segundo Tschiene, assim é impossível uma discussão criativa dirigida para um aprofundamento da teoria do treinamento esportivo (110, 111).
Não é difícil entender que tal posição representa uma das causas principais da crise da CPT de Matveev.
Por que parou o relógio da CPT ?
    Atualmente não vale a pena analisar os defeitos teóricos e os evidentes absurdos metódicos da CPT. Em vez disso, ocorre voltar a nossa atenção sobretudo para a inconsistência cientifica e metódica desta concepção para evitar esta situação no futuro.
    O mais importante defeito da CPT, que a priva de valor teórico e prático, consiste no fato de que esta ignora os conhecimentos da biologia e os progressos da biologia do esporte.
    Atualmente não é necessário convencer sobre a necessidade de desenvolver a componente biológica da teoria do treinamento esportivo (6, 7), muitas vezes salientada por vários especialistas (10, 38, 47, 48, 57, 60, 67, 85, 90, 110, 111, 113). Porém, o autor da CPT não esconde a sua posição negativa em relação às noções da biologia e afirma que as leis biológicas não determinam a macro estrutura do treinamento que, segundo ele, é determinada geralmente pelas leis que controlam a forma esportiva (27). Além de tudo, parece que dramatiza todas as tentativas de analisar o processo de melhora do atleta do ponto de vista da teoria da adaptação e de reconhecer a prioridade da componente biológica na teoria de treinamento esportivo. Segundo Matveev, a teoria da adaptação é interpretada por todos de modo simplificado, e isto leva a uma interpretação errada das idéias sobre o desenvolvimento da forma desportiva e representa a biologização e a desumanização da teoria do esporte (28, 29)
    Devemos dizer, porém, que Matveev às vezes se inclina diante da teoria da adaptação, admitindo que as leis dos processos de adaptação têm um determinado papel nas transformações do organismo produzidas pela atividade esportiva. Porém, afirma imediatamente que a adaptação é só uma pequena parte do caminho do atleta em direção ao sucesso.
    Segundo ele, a teoria da adaptação deve ser somente um acessório da teoria do treinamento e provar de modo argumentado os seus princípios (30). Diz ainda que : "o papel prioritário na interpretação do processo de aperfeiçoamento esportivo e dos fenômenos a esse ligados deve ser protagonizado não pela teoria da adaptação, mas sim pela teoria do desenvolvimento" (27).
    Uma conseqüência (e ao mesmo tempo uma confirmação) da escassa consistência metodológica e cientifica da CPT consiste na confusão conceptual entre lei, princípios, conceitos principais, características naturais, etc... Isto é uma confusão devida a uma tentativa singular e privada de perspectiva de conseguir obter leis da experiência da organização do treinamento esportivo (26, 28).
    Segundo Matveev, os princípios do treinamento esportivo representam "a generalização do grande material empírico acumulado no esporte e espelham as leis biológicas da adaptação e do treinamento esportivo" (30). Trata-se de uma afirmação estranha porque o processo de treinamento é organizado ainda com base em idéias subjetivas sobre os conteúdos, a estrutura e sobre a sucessão no seu desenvolvimento . E aqui não existe alguma "lei" (no senso científico da palavra). No melhor dos casos, pode-se falar somente de algumas regras metódicas da organização do processo de treinamento formuladas com base em processos empíricos, mas que têm uma origem subjetiva. As leis têm caráter objetivo, e, é necessário procurá-las em uma outra esfera de fenômeno e processos (que é ignorada pela CPT) em cuja base existem fatores e ligações objetivas que determinam os mecanismos do seu desenvolvimento, por exemplo: na esfera da adaptação do organismo a uma atividade intensa, ou naquela do processo de especialização morfo - funcional do organismo durante a preparação pluri-anual (4, 5, 6, 9, 48, 113).
    O caráter lógico e especulativo das idéias sobre a atividade esportiva privada de objetividade, tem levado a CPT a afirmar que uma das leis fundamentais do treinamento esportivo consiste nos laços indissolúveis entre preparação geral e especial do atleta (28). Entre estas leis fundamentais se enumeram outras formuladas sem se levantar da escrivaninha (sic) por exemplo, a lei da continuidade e da ciclicidade do processo de treinamento, aquela da unidade entre gradualidade e a tendência às cargas máximas, aquela da dinâmica à ondas das cargas, etc...(26, 30). Em contraposição a estas , sabemos que no esporte de alto rendimento, a evolução dos resultados é fruto de leis mais profundas a respeito daquelas formuladas pelas CPT (4, 9, 18, 32, 38, 47, 67, 81, 110, 113).
    É muito natural que esta confusão, sem princípios, entre leis,. tenha provocado uma outra entre os princípios do treinamento esportivo. Assim, a análise de dezessete manuais de diversas disciplinas esportivas dos institutos de educação física da URSS, demonstraram que os seus autores não veem as diferenças na variedade de princípios existentes, isto é, as diferenças entre os princípios do sistema soviético de educação física, os princípios pedagógicos gerais e os princípios especiais do treinamento esportivo, reduzindo-os todos a um grupo de princípios deste último (14).
    Portanto, na falta de uma sólida base cientifica da CPT, os seus conceitos são caracterizados por contradições internas e resultam, notavelmente, artificiosos e pseudo-científicos e não só não podem representar e servir de instrumento de trabalho eficaz, mas representam, sobretudo, o fator que limita o desenvolvimento das idéias sobre este mesmo processo, destorcendo os princípios práticos da sua organização e oferecendo um péssimo serviço à preparação dos treinadores (!7, 37, 46, 54, 58, 62, 64, 73, 120, 123).
    A base especulativa da CPT parte das, assim denominadas, fases de formação da forma esportiva (24, 27). O conceito de dinâmica da forma esportiva foi mudado pelos trabalhos de Leutunov (22) e de Prokop (95), que foram os primeiros a formular a idéia de que à base do aumento do nível de treinamento do atleta existiriam as leis biológicas que determinam o desenvolvimento do processo de adaptação às condições da atividade esportiva. Estes autores individualizam três fases deste processo:
    LEUTNOV
• fase do aumento do nível de treinamento;
• fase da forma desportiva;
• fase da diminuição do nível de treinamento.
    PROKOP
• fase de adaptação esportiva
• fase de máxima capacidade de trabalho;
• fase de readaptação.
    Porém, nos parece que, sem conseguir entender e a desenvolver o profundo conteúdo biológico das idéias de Prokop e Leutunov, o autor da CPT não foi em grau de ir além de uma interpretação pedagógica do treinamento (26, 27, 29), limitando-se a discursos, não fundamentados seriamente, sobre as leis da formação esportiva, modificando somente os nomes das fases (24, 26, 27) e, assim afirmou que: "O primeiro pressuposto natural da periodização do processo de treinamento consiste no desenvolvimento (andamento) por fases da forma esportiva". Formação, manutenção e perda temporânea da forma são determinadas por efeitos de treinamento bem determinado, cujo caráter regular muda de modo natural de acordo com a fase de desenvolvimento da forma esportiva"(26). A forma esportiva que se adquire nesse ou naquele nível do processo de aperfeiçoamento representa o estado ótimo somente por um dado nível de preparação esportiva (e somente para este). Para continuar progredindo ocorre que desapareça a velha forma e que se conquiste uma nova (26).
    É fácil notar que esta idéia sobre a natureza do treinamento baseada sobre a dinâmica da forma esportiva fornece somente uma imagem superficial de um fenômeno pluri dimensional. Idéias semelhantes que, nos anos 60, podiam passar por descobertas científicas, atualmente, é evidente, parecem bastante ingênuas ( 17, 54, 110, 113, 120). Hoje, é claro que a aquisição da forma esportiva ofuscou por muito tempo a principal condição para o progresso da maestria esportiva, isto é, a necessidade de aumento contínuo das possibilidades funcionais do organismo do atleta (5). Por exemplo, se de ano em ano o atleta atinge a sua forma esportiva e depois, a perde sem pensar no aumento do nível de capacidade específica do trabalho, não se poderá falar de algum progresso ( 4, 5, 9, 34, 40).
    Ao mesmo tempo, Matveev continua a ignorar tenazmente os inúmeros trabalhos sobre a adaptação do ser humano a uma atividade muscular intensa, típica do esporte (9, 10, 18, 31, 47, 48, 113), os resultados do estudo das leis do processo de formação da maestria esportiva e da especialização morfo funcional no processo pluri-anual do treinamento (4, 5), das tendências da dinâmica do estado funcional do atleta em função à carga de treinamento estabelecida ( 8, 13, 35, 39, 44, 45); isto é, os trabalhos em que são analisadas as essências objetivas, as origens, as dinâmicas e as características quantitativas do desenvolvimento do processo de melhoramento da capacidade específica de trabalho do atleta.
    Apesar disto, o conceito de forma esportiva foi transformado em dogma, em uma espécie de coisa que se resolve em si mesmo, porque mesmo com os discursos infinitos sobre a dinâmica, sobre as fases de formação, sobre as leis de desenvolvimento, sobre a diminuição da forma esportiva, etc..., em nenhuma parte se encontra uma explicação compreensível da natureza biológica de todos estes misteriosos atributos. Por causa desta teorização o autor da CPT reduziu a proposição de Letunov e de Prokop, muito avançada para o seu tempo, a uma formal concepção da teoria da periodização de treinamento sem qualquer base cientifica e perspectiva de desenvolvimento ( 17, 37, 75, 110, 120). Portanto Matveev não só prefere continuar nos anos 50-60, mas, exaltando os valores do conceito de forma esportiva (25,27), procura transportar para o passado passado remoto os especialistas modernos.
    Como já dissemos anteriormente, a inconsistência prática e teórica da CPT e dos fundamentos da teoria de treinamento baseado sobre esta, foi determinada por ignorar desde o início os conhecimentos biológicos e da aspiração de torná-la uma pedagogia geral (26, 30). Sem dúvida, esta tem relação com a teoria do treinamento esportivo, porém não tendo fundamentos nas ciências da natureza, nem critérios quantitativos objetivos sobre o seu objeto, nem um método científico certo, não pode absolutamente representar o fundamento teórico-metodológico da teoria do treinamento esportivo. Porém, o assim dito "modus" pedagógico da teoria de treinamento esportivo liberou Matveev da exigência da impecabilidade e da não contrariedade do corpo conceptual, da preparação de um exame minucioso da literatura que diz respeito aos problemas científicos da concepção e da pesquisa e da utilização de dados qualitativos exatos e, sobretudo lhe deu, amplas possibilidades de teorização, através de discursos infundados e construções especulativas.
    É importante notar que em vez de conceitos de desenvolvimento e de melhoramento das capacidades motoras, que são utilizados normalmente, Matveev escreve ( e seriamente) sobre educação da força ou da resistência, sobre educação da rapidez dos movimentos e da flexibilidade, etc... Porém não se trata de um evidente não senso, mas de um artifício destinado a aumentar o "senso pedagógico" a CPT.
    O método da CPT e dos "Os fundamentos do treinamento esportivo" é bastante primitivo. Este método compreende as chamadas observações pedagógicas, o registro de dados em algumas disciplinas, o princípio analítico-sintético superado há muito, e, enfim: "a generalização das experiências da prática esportiva que são parcialmente confirmadas pelo material (pelos dados) experimentais e são completadas através de reflexões teóricas" (25, 26).
    Para vestir estes métodos de uma forma pseudo-científica afirma-se, por exemplo, que, para superar idéias subjetivas sobre a forma esportiva e para formar idéias corretas sobre a mesma, baseadas em dados dos resultados esportivo, são necessários uma análise acurada quantitativa, bem como uma análise lógico-conceitual (27).
    Esta análise se expressa em calcular um limite inferior, muito rigoroso, da zona que representa o critério da forma em resultados esportivos que não devem ser inferiores ao 1,5 a 2% de desvio dos records individuais nos esportes cíclicos e de 3 a 5% nos esportes acíclicos (esporte de força rápida). Aqui, Matveev , como sempre, não dá uma palavra sobre como é definida a forma esportiva nos jogos esportivos e em outros esportes nos quais não existe um método objetivo de avaliação do resultado esportivo. Isto quer dizer que se o atleta realiza resultados que são inferiores a esta zona, não atingiu a forma esportiva.
    No que toca à dinâmica da forma esportiva, o cálculo analítico consiste em traçar uma curva que reúne os melhores resultados expressos em percentual do resultado máximo (26, 27). Este método é ilustrado com curvas que são como se fossem traçadas a mão, como devem ser, para tirar as leis da dinâmica a ondas da forma esportiva (27)(figura 1). Porém Matveev prefere não observar o fato que no momento da máxima forma esportiva a maior parte dos resultados se encontra abaixo do limite da zona por ele estabelecida.
    Não creio que atualmente valha a pena afirmar que orientar-se sobre o fato esportivo e sobre a dinâmica da forma esportiva que se esconde no seu andamento a ondas, possa ser considerado seriamente como método de estudo das leis do treinamento esportivo ( 8, 17, 54). E mesmo se Matveev (e nisto lhe deve ser dado o mérito) fala da importância do estudo das relações entre a entidade da carga de treinamento e o nível de transformação de adaptação que se processam no organismo (30), em nenhuma das suas publicações, mostra algum exemplo de maior validez, apesar de existirem inúmeros, basta somente consultar livros e revistas. Ao mesmo tempo é evidente que dar juízos sobre as causas do andamento a ondas dos resultados esportivos e, portanto, da forma esportiva, sem ter informações sobre os conteúdos e a organização da carga correspondente de treinamento e sobre a importância que tem para o atleta esta ou aquela competição, e mais ainda, deduzir de tudo isto determinadas leis, é ao menos, ingenuidade. Ainda mais ingênuo é buscar a confirmação dos denominados picos de forma esportiva em só dois exemplos e de atletas de meio-fundo Clark e Rono (27).       Sabemos muito pouco sobre a organização dos seus treinamentos. E além disso, estes atletas não tinham conhecimento de periodização do treinamento e das "leis do controle da dinâmica da forma esportiva" (46, 77, 101, 108)
    Outro ponto débil do método de Matveev é devido ao fato de que os dados sobre os quais se baseavam as generalizações e a formulação dos princípios e das "leis" era caracterizado por um valor científico, por um nível informativo e por uma fidedignidade escassa. Trata-se sobretudo da análise dos dados sobre o volume e sobre a dinâmica das cargas de treinamento utilizados por atletas, extraídos não se sabe como. Esta forma simples de análise de dados empíricos, isto é, a generalização da experiência prática, produziu um gênero de trabalhos que tem desenvolvido sem dúvida, um papel importante, seja para um posterior desenvolvimento dos princípios empíricos e da metodologia do treinamento, seja para a solicitação do pensamento criativo dos treinadores. Mas quando com base nestes dados se quis formular "leis" da organização do treinamento (26, 28), o valor científico dos princípios e dos conselhos (baseados nestes) é muito diminuído (4).
    Portanto, atualmente devemos constatar, infelizmente, que não obstante inúmeras afirmações "sobre uma ampla argumentação baseada em fatos e na concretização tecnológica em forma de sistemas metodológicos e de regras com caráter aplicativo" (24, 26, 28) que se afirma serem contidas na CPT, esta não tinha, e não dispõe, de um método objetivo, e de uma base experimental séria. Por isso, idealizada como meio para ajudar o treinamento no esporte de alto nível (24), foi transformada, em uma disciplina escolar (26) que tem separado o seu autor da ciência e da prática esportiva que continuam a andar avante. Por esse motivo, os sucessivos trabalhos de Matveev (27, 30) destinados a convencer um leitor pouco esperto da excepcionalidade e universalidade das suas idéias não trouxeram nenhuma modificação à idéia original.
    A argumentação de Matveev é muito simples: visto que o aperfeiçoamento esportivo não pode acontecer fora da sucessão das fases de aquisição, da manutenção e da perda momentânea da forma esportiva, o processo de treinamento deve ser organizado de modo (tal) a poder garantir o controle ótimo do desenvolvimento destas. Em conseqüência, no treinamento são individualizados os seguintes períodos: preparatório, o de competição e o de transição; enquanto a organização dos macrociclos de treinamento, em definitivo, são determinadas pelas leis do controle do desenvolvimento da forma esportiva (25, 26).
Além disso, é peremptoriamente afirmado que "todas as outras formas de organização do treinamento, ainda que possam parecer boas, se não têm relação com as leis objetivas deste processo, inevitavelmente falirão"(25). Porém, a subdivisão mecânica do processo de treinamento e a sucessiva reunificação de suas partes em um todo, antes de tudo tem pouco em comum com a real organização do processo de treinamento na maior parte dos esportes (2, 17, 41, 51, 54, 63, 92, 102). Em segundo lugar, por causa desta subdivisão, não só é perdida a integridade do processo de treinamento determinada objetivamente pela natureza biológica do processo de adaptação, como também é alterado o andamento natural deste processo, perdendo-se assim a possibilidade de controle ótimo do seu desenvolvimento, porque este controle se transfere no âmbito da escolha de variante diversas da organização do treinamento com base em ensaio e erro (4, 5, 8, 9, 32, 34, 40). Nesta situação praticamente são possíveis dezenas de variantes de solução, sem porém que a CPT proponha razões objetivas para a escolha da variante ótima.
     Além disso, é peremptoriamente afirmado que "todas as outras formas de organização do treinamento, ainda que possam parecer boas, se não têm relação com as leis objetivas deste processo, inevitavelmente falirão"(25). Porém, a subdivisão mecânica do processo de treinamento e a sucessiva reunificação de suas partes em um todo, antes de tudo tem pouco em comum com a real organização do processo de treinamento na maior parte dos esportes (2, 17, 41, 51, 54, 63, 92, 102). Em segundo lugar, por causa desta subdivisão, não só é perdida a integridade do processo de treinamento determinada objetivamente pela natureza biológica do processo de adaptação, como também é alterado o andamento natural deste processo, perdendo-se assim a possibilidade de controle ótimo do seu desenvolvimento, porque este controle se transfere no âmbito da escolha de variante diversas da organização do treinamento com base em ensaio e erro (4, 5, 8, 9, 32, 34, 40). Nesta situação praticamente são possíveis dezenas de variantes de solução, sem porém que a CPT proponha razões objetivas para a escolha da variante ótima.
    Seguir de modo formal "as leis da formação da forma esportiva "têm levado a idéias erradas sobre os objetivos e sobre os conteúdos do período preparatório e o de competição que são utilizados há muito tempo no desporto (12, 15, 19). A lógica linear da explicação dos seus objetivos ( primeiro a preparação e depois a competição) não correspondem à realidade dos dias de hoje, mas desorienta também treinadores e pesquisadores que trabalham no campo dos esportes.
    Assim, o período preparatório é reduzido à construção e à verificação da forma esportiva através de um intenso trabalho puramente preparatório, enquanto o outro período, o de competição, é destinado às mesmas e à estabilização ou manutenção da forma esportiva e é composto pelos mesociclos de competição e pelos chamados mesociclos de transição (mesociclos recuperativos e de manutenção e mesociclos preparadores de recuperação) (25). Então, no período de competição o nível do treinamento dos atletas era somente mantido e não desenvolvido (17). Segundo os especialistas, uma interpretação assim primitiva da periodização não corresponde nem de longe à realidade (16, 32, 51, 63, 72). De fato na maior parte dos esportes cíclicos e dos jogos esportivos, o nível de treinamento precedentemente atingido não só é mantido, mas também desenvolvido no período competitivo.(9, 10, 17, 54, 113)E se é utilizada a teoria da adaptação, então o objetivo principal do período de competição consiste própriamente em concluir o ciclo atual de adaptação a longo prazo do organismo ao regime motor específico e em levar o organismo a um novo e estável nível de possibilidades funcionais específicas. (4, 5, 9, 10, 47, 113)
    Aqui, ocorre também levar em consideração a tendência ao aumento de duração do período competitivo durante o ano de treinamento e a intensificação do calendário de competições típico do esporte moderno (16, 32, 54, 56, 69, 98, 109, 120). Por exemplo, no ciclismo de nível internacional a duração do período de competições é de oito a oito meses e meio por ano.
    Naturalmente, o período preparatório não é suficientemente longo para realizar a chamada preparação de base. Pelo que o desenvolvimento principal do nível de treinamento acontece durante o longo período de competições (16, 17, 32, 33, 71, 98).
    Portanto, a separação mecânica entre período preparatório e de competições e a correspondente interpretação dos seus objetivos têm seriamente desorientado a prática esportiva, não garantiu as condições otimais e a necessária sucessão na solução dos problemas da preparação no âmbito do ciclo anual, alterou toda a estratégia da organização do treinamento, e como conseqüência, alterou também o andamento do processo natural de adaptação que representa a base do progresso da maestria esportiva.
    Atualmente, seguir os processos de uma similar periodização é como se na partitura de uma peça musical se transpusesse a parte do instrumento principal em uma tonalidade diversa. Se por hipótese nos dispuséssemos a escutar semelhante absurdo, o seu resultado pode ser considerado a "sonorização" do efeito da CPT sobre o esporte moderno.

7
    A parte mais rudimentar da CPT é a tecnologia do processo do treinamento.
    Segundo Matveev, a idéia da periodização consiste simplesmente no colocar em fila as partes do processo de treinamento em uma sucessão linear. A principal unidade estrutural (o tijolo) do treinamento é o microciclo. O processo de treinamento é representado como uma soma de microciclos colocados em fila formando uma cadeia. A lógica da sucessão linear desta cadeia é determinada de modo puramente especulativo (sobretudo porque segue o princípio de que se pode fazer assim ou assado) (sic) (25, 26). Servindo-se de vários microciclos standart com nomes diversos como em um jogo de construções, são construídos componentes diversos, maiores, do processo de treinamento, denominados mesociclos que, por sua vez, são reunidos (segundo o mesmo processo) em macrociclos (25, 26). Para a realização deste principio linear Matveev propõe "vários tipos" de mesociclos com nomes diversos, por exemplo: de base, preparatórios com caráter de controle, de polimento, preparatórios com caráter de recuperação, de recuperação e de manutenção, etc... Cada um destes mesociclos (não se sabe porque razão) compreende de 3 a 6 mesociclos. A variabilidade real da estrutura do treinamento se obtém através das combinações e deslocamentos diversos na sucessão linear dos mesociclos que citamos.
    Por exemplo, nos esportes de resistência, no período preparatório é aconselhada esta cadeia de mesociclos: de adaptação, de base com caráter de desenvolvimento, de base com caráter de estabilização, de base com caráter de choque, preparatório com caráter de controle, polimento e pré-competição. Um dos exemplos de organizar o chamado "período preparatório reduzido" nos esportes de força rápida, assim se apresenta: mesociclo de adaptação, de base, preparatório com caráter de controle, de polimento com elementos de mesociclo de pre-competição. Nos períodos de competição as cadeias de mesociclos são construídas de modo análogo (26, 27)
    Não vale a pena aprofundar o estudo destas cadeias com os seus exemplos evidentemente teóricos que não tem nenhum valor pratico. Porém, ocorre lembrar que Matveev jamais propôs, em nenhuma parte, alguma explicação, argumentação ou conselho para aquilo que diz respeito a "construção" de tais cadeias de mesociclo ou o seu tempo de duração ótima.
    Porém, outras pesquisas (41) destinadas a confirmar a onipotência (sic) da CPT têm desiludido esta esperança, e têm revelado em toda a sua evidência quanto é primitiva esta tecnologia de planificação e, ao mesmo tempo, tem demonstrado de modo convincente que:
a. na prática, vêm utilizadas modalidades de organização de treinamento muito diversas dos conselhos especulativos de Matveev;
b. a interpretação do processo de treinamento como combinação linear de componentes standart é pouco seria;
c. se fossem seguidos os conceitos teóricos da CPT a probabilidade de êxito da preparação dos atletas não seria assim tão elevada como se pensa (e isto confirma a opinião dos especialistas) (16, 17, 19, 32, 34, 42, 46, 51, 68, 91, 102).

8
    Os maiores defeitos da CPT, atualmente, diante das ciências biológicas, é representados pelo fato de que esta concepção prevê somente duas modalidades de regulação do efeito do treinamento, isto é, o volume e a intensidade da carga. Visto que esta concepção não prevê outras modalidades (salvo, talvez, o andamento a ondas do volume total da carga, interpretado de modo primitivo), em todos os anos em que predominou a CPT, o fator principal do aumento da eficácia do processo de treinamento foi uma orientação em direção ao incremento global do volume das cargas (12, 21, 32, 54, 61, 108) que, por sua vez, foi também a causa do desenvolvimento baseado no volume, não só da metodologia do treinamento, mas também do inteiro sistema de preparação dos atletas de elevada qualificação (15, 109, 110).
     Então, a característica mais importante do processo de adaptação que é a transformação das características qualitativas do estímulos externos que agem sobre o organismo em característica interna ao próprio organismo, resta fora da ótica da CPT (4, 5, 9, 10, 47). Ter ignorado (ou melhor dizendo, não ter entendido) o problema da especificidade das transformações de adaptação do organismo levou o autor da CPT a reflexões prolixas sobre o chamado "transfer" das habilidades e das capacidades motoras (28), isto é, sobre um fenômeno real, mas típico sobretudo da educação física, mas não do esporte de alto nível (4, 5). E se, por exemplo, durante um exame, um estudante de um instituto de educação física afirmasse que: "muitos exercícios cíclicos (locomoção), diversos pela sua forma (natação, corrida, ciclismo, etc...), podem, porém, ser muito vizinhos ao exercício de competição no que toca ao caráter da expressão da resistência e de outras qualidades físicas" (28), seguramente ele obteria uma nota baixa.
    A CPT é impotente diante desses problemas, mas, bastaria consultar alguns livros para descobrir facilmente que o fenômeno do caráter seletivo, específico, das reações de adaptação do organismo segundo o regime do trabalho, é conhecido há tempo e representa um dos critérios mais importantes da escolha dos conteúdos e da organização das cargas de treinamento, dos fins prevalentes do seu efeito de treinamento e da sua composição geral (4, 5, 10, 11, 47, 48, 113).
    Atualmente, quando a possibilidade de descobrir novos meios de preparação física especial é diminuída consideravelmente, pois os volumes de sobrecarga alcançaram um limite que é ainda razoável, mas dificilmente superável, o controle da especificidade do efeito de treinamento dos estímulos representa a única estrada para o aumento da eficácia do sistema de treinamento para atletas de alto nível. Em vez disso, as reflexões sobre o "transfer", como também aquelas sobre o papel da preparação física geral no treinamento, significa retornar aos anos 50.
    Na literatura encontram-se muitos dados que dizem respeito aos mecanismos fisiológicos da especificidade dos efeitos de treinamento (4, 5, 10, 47, 53, 99, 106, 113, 119). Tê-los ignorado é um outro defeito muito serio da CPT que, na prática, é expresso em uma enorme, e quase sempre improdutiva, perda de tempo e de energia por parte dos atletas para realizar um trabalho global de treinamento caraterizado por uma eficácia escassa. Para terminar, na União Soviética e em outros países foi a causa da falência de muitos planos da preparação de muitos atletas destinados a alcançar o vértice da maestria esportiva. (32, 46, 67, 73, 108, 109, 120).

3. Conclusão
      Estes são os quatro defeitos importantes que privaram de qualquer valor teórico e prático a CPT:
1. Uma idéia aproximativa sobre a atividade esportiva, sobre a tecnologia da preparação dos atletas de alto nível e sobre a especificidade da maestria profissional do treinador.
2. A primitividade da concepção metodológica; um aparato conceptual somente fruto de teoria, não fundado em bases objetivas; princípios metodológicos puramente especulativos, absoluta falta de conselhos práticos científicos fundados.
3. Ter ignorado o conhecimento biológico.
4. Não ter levado em consideração os progressos das ciências afins e dos resultados das pesquisas experimentais desenvolvidas no âmbito do treinamento esportivo.
    A atividade esportiva leva o homem ao máximo nível das possibilidades funcionais previstas pela natureza. Isto demanda uma mudança radical de todos os sistemas fisiológicos do inteiro complexo das interações internas e externas do organismo. Por esse motivo, o treinador que organiza este processo, e controla o seu desenrolar tem uma grande responsabilidade moral no tocante à saúde e ao futuro do atleta. E se não dispõe de profundos conhecimentos sobre o que advém no organismo do atleta, e segue somente discursos pseudo-pedagógicos sobre a periodização do treinamento ou sobre as leis do controle da dinâmica da forma esportiva, o progresso do esporte de alto nível torna-se imprevisível.