Os Horizontes de uma teoria e metodologia cientifica do treinamento desportivo

Os Horizontes de uma teoria e metodologia cientifica do treinamento esportivo
Yury Verchoshanskij

Introdução
    A preparação de um atleta é um processo multilateral, caracterizado por conteúdos e formas de organização específicos que o transformam em um conjunto também específico de ações sobre a personalidade, sobre o estado funcional e sobre a saúde do atleta, dirigido à sua educação multilateral e, em particular, à aquisição de uma ampla bagagem de conhecimentos, habilidades e capacidades especiais, ao aumento da capacidade de trabalho do seu organismo e a assimilação da técnica dos exercícios esportivos e da arte de competir (32, 43, 57, 70, 72, 73, 74, 77, 88, 92).
    A maestria esportiva é sobretudo uma arte do movimento para a qual a educação ou a preparação do atleta é realizada, sobre a base e durante o processo de uma atividade motora especializada. Por tanto, o seu aumento é determinado e, simultaneamente, limitado das possibilidades físicas do organismo, isto é, da sua capacidade de desenvolver o necessário nível de potência física e de tolerar a carga de treinamento indispensável ao melhoramento desta capacidade. Disto deriva que os princípios metodológicos do treinamento, alem da orientação educativa, devem exprimir também as bases biológicas do processo de formação da maestria esportiva. (10 -13, 94-97, 102, 106, 107).
    Isto não representa um apelo a biologizacao da teoria e metodologia do treinamento desportivo ( de agora em diante TMTD), mas reforça a especificidade do desporto, que consiste no fato de que, neste, o processo educativo advém a um nível muito elevado (ou máximo) de tensões psíquicas e físicas, desconhecido a qualquer outro tipo de processo pedagógico, nos quais não podemos permitir 'achismos' e cometer erros, porque o preço deles é a saúde do atleta. Próprio por esse motivo, o aspecto biológico deve ter a prioridade na pesquisa cientifica direcionada na solução dos problemas da organização racional do processo de treinamento. (10, 12, 13,18, 67, 84-86, 93, 104).
    Neste artigo vêm formuladas as bases lógico-conceituais da moderna TMTD. Considerados os limites de espaço, vêm analisados somente os seus aspectos gerais aquela parte desses diretamente ligadas aos princípios e a tecnologia da organização do sistema do treinamento. Uma exposição mais detalhada destes problemas se encontra na obra do autor citadas na bibliografia.
1. Qual é a essência do processo de treinamento no desporto
    Antes de falar da TMTD como uma disciplina de caráter aplicativo, ocorre ter uma idéia clara sobre qual seja a essência do processo de treinamento no desporto, compreender os fatores casuais, os mecanismos e as leis do processo de formação da maestria desportiva durante o treinamento plurianual, definir exatamente os requisitos principais aos quais devem corresponder os conteúdos e a organização do processo de treinamento. Em outros termos , ocorre haver uma idéia clara de como a TMTD deve funcionar e de como pode ajudar concretamente o treinador.
    Os resultados das pesquisas fisiológicas, desenvolvidas seja por especialistas da ex. União Soviética (6, 18, 35, 58, 64, 81, 82), seja de outros países (4-86, 89, 90) e os resultados das nossas pesquisas ao longo dos anos (10,11, 91, 94-101) permitem-nos afirmar que o aumento da maestria desportiva (S) é ligado principalmente a dois fatores:
1. ao aumento do potencial motor do atleta (P);
2. è capacidade do atleta utilizar eficazmente este potencial nas condições de treinamento e competição (T) (figura 1). Visto que com o aumento da maestria desportiva (S) o atleta utiliza sempre melhor as suas crescentes possibilidades funcionais (e isto pode ser demonstrado pela aproximação continua da curva T daquela P), é natural que uma melhoria progressiva dos resultados da performance venha sempre mais determinado pelo aumento destas possibilidades funcionais (10, 11, 94-97).

 
Fig. 1 - Tendência do aumento do potencial motor do organismo(P) e da capacidade do atleta de utilizá-lo (T) com o aumento da maestria desportiva do atleta (S). R é a dinâmica do aumento da intensidade dos estímulos do treinamento sobre o organismo.

    Portanto, o aumento constante do potencial motor e a melhoria da capacidade do atleta de utilizá-lo eficazmente de um modo finalizado devem ser considerados a invariável principal do processo de treinamento, enquanto o grau de utilização deste potencial é um dos critérios da sua eficácia (10, 48, 69).Todos os outros numerosos e importantes objetivos e todas as outras componentes do processo de treinamento representam condições e fatores que favorecem a realização da sua invariável principal. Um desses fatores é representado, particularmente, pelo aumento da intensidade dos estímulos de treinamento sobre o organismo do atleta (fig. 1), que pode ser descrito pela curva R que cresce de modo exponencial, significando que, com a melhoria dos resultados da performance (S) para incrementar o potencial motor do organismo (P) será necessário aumentar, também, aquele da intensidade dos estímulos de treinamento(R).
    O esquema sucessivo (fig. 2) demonstra que o potencial motor e a capacidade do atleta de utilizá-lo eficazmente determinam principalmente a denominada potência 'efetiva' (em senso físico) de trabalho do organismo nas condições especificas de uma atividade motora concreta e, em definitivo, o resultado da performance. A melhora deste representa uma conseqüência do aumento da potência 'efetiva' de trabalho do organismo que, em pratica, é assegurado pelo melhoramento da capacidade de competição e pelo aumento do nível de preparação técnico-tática, psicológica e física especial do atleta. A este propósito ocorre chamar à atenção o seguinte fato: que a preparação física especial se encontra na base do esquema da figura 2 e representa o fator principal que assegura o aumento da intensidade dos estímulos de treinamento necessários para incrementar o potencial motor do organismo e para criar condições favoráveis para resolver os problemas da preparação técnico-tatica com o simultâneo aumento dos resultados da performance (11, 99, 100).
    Agora passaremos ao esquema sucessivo (fig. 3) que mostra a curva que caracteriza a potência de trabalho do organismo do atleta (N) nas condições da atividade desportiva, no que diz respeito a sua duração (t). A cada disciplina esportiva corresponde um determinado ponto desta curva.
    Quanto maior é a potência pedida (por exemplo, no levantamento de peso) mais este ponto é vizinho das coordenadas e vice-versa, quanto mais é prolongado o trabalho (corrida de fundo), menor será a potência de trabalho e, portanto, mais longe este ponto será do inicio das coordenadas.
    Portanto, a preparação do organismo para o trabalho em um regime determinado de potência representa um dos mais importantes objetivos finais do treinamento. As modernas aquisições da ciência do desporto permitem individualizar muito facilmente todas as características ergométricas, biomecânicas e fisiológicas do correspondente regime de trabalho do organismo (10, 12, 19, 57, 64, 81, 82, 84-86, 90, 105).
2. Qual deve ser a teoria do treinamento desportivo
    Agora, podemos colocar o problema de quais devem ser os conteúdos e a organização dos meios e dos métodos de todas as componentes do treinamento desportivo, para garantir a necessária potência 'efetiva' de trabalho do organismo em um determinado exercício esportivo. Exatamente aqui vêm verificados, seja a importância cientifica, seja o valor pratico da TMTD. Se, no que diz respeito aos seus conteúdos, a TMDT é adequada as exigências da prática desportiva, então os treinadores encontrarão bases suficientes para responder a todos os problemas pelos quais é interessado. Em particular, por aqueles que dizem respeito à concepção metodológica da preparação, à linha estratégica principal e ao programa de treinamento do atleta (fig. 2) no regime concreto de potência do trabalho orgânico, típico de um determinado esporte ou disciplina desportiva, em geral, e de um determinado nível de maestria desportiva, em particular. Voltaremos a analisar estes conceitos mais adiante. Agora iniciamos por ilustrar o esquema representado na figura 4 que desenvolve idéias contidas na figura precedente e concretiza os requisitos aos quais devem corresponder os conteúdos da TMTD, lembrando sempre da necessidade de conhecer a fisiologia da atividade muscular.

 
Figura 2 - Fatores principais que determinam ou limitam a performance

 
Figura 3 - Esquema do principio sobre o qual se baseia a relação entre a teoria do treinamento desportivo e a organização da preparação do atleta.

 
Figura 4 - Esquema sobre o qual se baseia a relação entre a teoria do treinamento desportivo e a organização da preparação do atleta.

    A partir do esquema proposto é evidente que a TMDT pode oferecer pressupostos objetivos e essenciais para a escolha dos estímulos de treinamento e para a sua organização racional somente se:
1. baseada em uma idéia global sobre a especificidade dos movimentos de uma concreta disciplina desportiva.
2. baseada nos conhecimentos sobre as possibilidades funcionais e sobre a possibilidade de adaptação do organismo inteiro e dos sistemas fisiológicos.
    Só assim a TMDT pode oferecer conselhos seguros no que diz respeito à melhora da função e da estrutura dos sistemas fisiológicos do organismo, e também ao melhoramento da maestria técnica, necessários à mudança das interações externas do organismo nas condições da própria atividade desportiva (10_13, 94-97, 99). Além disto, levando em consideração as particularidades do desenvolvimento do processo de adaptação, a TMDT deve, antes de tudo, classificar e distinguir todos os meios e métodos de treinamento conhecidos na prática desportiva em dois grupos principais:
• intensivos, isto é, dirigidos a uma intensificação das funções do organismo;
• extensivos, isto é, dirigidos à ativação das transformações morfológicas do organismo; e fornecer informações de como utilizá-los no sistema de treinamento (13, 14, 99, 106, 107).
3. As bases científicas da teoria do treinamento desportivo
    Portanto, de acordo com a particularidade especifica da atividade desportiva acima utilizada, os fundamentos científicos da moderna TMDT devem ser constituídos deste conjunto de conhecimentos (8-11, 94-97, 106, 107) :
1. as leis gerais do desenvolvimento do processo de adaptação do organismo do atleta a um trabalho muscular intenso nas condições da atividade desportiva. Estas leis:
a. fornecem idéias sobre os mecanismos fisiológicos e seus parâmetros quantitativos e temporais de desenvolvimento das relativas transformações de adaptação do organismo e
b. representam pressupostos objetivos, por formularem objetivos finais precisos para tomar decisões concretas diretas para definir, em geral, os conteúdos e a organização do processo de treinamento.
2. as leis especificas do processo de formação da maestria desportiva (PFMD) em cada desporto, em cada sua disciplina.
Tais leis caracterizam, objetivamente, as condições necessárias e as relações de causa e efeito entre esses, que asseguram o progresso dos resultados das competições e determinam a sucessão racional segundo a qual mudam os conteúdos e a organização do processo de treinamento durante a preparação plurianual.
3. As leis da especialização morfo-funcional (EMF) do organismo no treinamento plurianual. Estas representam a expressão externa da componente especifica do processo de adaptação a longo prazo de uma atividade muscular intensa e constituem a base objetiva para a planificação da preparação plurianual.
Esta parte da TMDT compreende também os modernos conhecimentos sobre as capacidades motoras do homem, sobre os seus mecanismos fisiológicos, sobre as leis da sua formação e do seu melhoramento.
4. As leis da formação da maestria técnica.
Estas estão na base do processo de aquisição daquele sistema racional de movimento que é típico da atividade da competição das leis do seu aperfeiçoamento e daquelas de sua reprodução estável nas condições de treinamento e de competição, isto é, em condições de velocidade e intensidade máxima das exigências de força.
5. As leis da relação reciproca, existente entre a dinâmica do estado funcional do atleta nas etapas de longa duração e as cargas de treinamento estabelecidos (conteúdos, volume, intensidade e organização). Estas leis fornecem as bases para a escolha das formas racionais de organização do processo de treinamento no ciclo anual.
4. Um enfoque moderno à elaboracao da teoria de treinamento desportivo
    Graças a uma ampla utilização dos conhecimentos biológicos, a TMDT se enriquece continuamente de novos conceitos que lhe aprofundam a base cientifica e mudam de modo radical os princípios de organização do processo de treinamento. Entre estes podemos citar, por exemplo (10-13, 15, 102) os seguintes conceitos:
• de reserva atual de adaptação do organismo,
• de grande ciclo de adaptação,
• da especificidade das reações do organismo aos estímulos do treinamento,
• do principio da organização programada e finalizada do treinamento
4.1. A reserva atual da adaptação do organismo (RAA)
    É a reserva de energia de adaptação que oferece ao organismo a possibilidade de uma adaptação temporária, mas muito estável, em condições extremas que exigem a máxima intensidade do seu funcionamento (15,102). As idéias sobre a existência da RAA do organismo colocam em evidencia, sobretudo, que, nas condições de um trabalho muscular intenso, o processo de adaptação não pode durar infinitamente. Existe de fato um limite, muito determinado por possibilidades do organismo de responder, com reações adequadas, a estímulos de treinamento que se sucedem continuamente, porém condicionado por fatores genéticos. Pode-se presumir que este limite que caracteriza a capacidade da reserva atual de adaptação(RAA) venha determinado, seja pela reserva funcional dos sistemas hormonais (18, 35, 60, 78, 103-105), seja pelo nível absoluto das transformações de adaptação (transformações morfo-funcional) alcançados pelo organismo (10,15, 102).
    Também a qualidade, intensidade e o volume dos estímulos de treinamento, assim como a dinâmica do seu aumento no tempo e a duração da sua utilização objetivamente necessária para a completa realização da RAA do organismo são caracterizados por determinados valores quantitativos. Se estes são inferiores a um determinado valor, a RAA não é realizada, e se são superiores as reservas vem excessivamente exauridas. Em ambos os casos haverá um efeito de treinamento escasso (12, 13). Por esse motivo, pode ser considerada uma organização eficaz de treinamento aquela que garanta a realização completa da RAA do organismo, que se obtêm com a utilização do volume e da intensidade de estímulos de treinamento, a uma velocidade ótima de aumento dos estímulos de treinamento.
4.2. O grande ciclo de adaptação (GCA)
    Trata-se de uma componente estruturalmente integrada e relativamente independente do processo de treinamento, cujos conteúdos, organização e duração são dependentes da realização da RAA do organismo. Em outros termos, o GCA é uma fase completa de desenvolvimento do processo de adaptação caracterizada pela transformação morfológica relativamente estável do organismo, e, sobre esta base, da passagem deste a um novo, e mais elevado, nível de capacidade especifica de trabalho (12, 13, 99, 102).
    Representa a principal forma de organização do treinamento, que deve ser precisamente individualizada do ponto de vista organizativo no âmbito do processo de treinamento. Além disso, o GCA deve ser programado de modo adequado, e repetido com uma certa sucessão no tempo, a um nível cada vez mais elevado de intensidade de funcionamento do organismo. Do ponto de vista organizativo, a solução dos objetivos metodológicos deve ser adaptada à estratégia geral do treinamento, que é dependente da realização da RAA e, convém salientar de modo especial, deve-se basear nas transformações morfo-funcionais do organismo.
    Observações realizadas nas condições de atividade desportiva(2, 14, 20, 21, 29, 30, 46, 52, 79, 80) e experiências da prática desportiva (10, 11) confirmam que, na presença de cargas de volume e intensidade como aquelas utilizadas pelos modernos atletas de alto nível, de acordo, com o calendário de competições e com os objetivos da preparação, nos desportos com uma etapa de competições, a realização completa da RAA acontece, aproximadamente, em 40 a 45 semanas. Para os desportos que prevêem duas etapas de competição, são necessárias 18 a 24 semanas, para outros que prevêem três etapas de competição, são necessárias de 14 a 16 semanas (11-13, 106, 108, 109). Portanto, de acordo com a especificidade de um desporto ou disciplina desportiva, o GCA pode durar um ano, um semestre ou um período inferior a esses. (12,13).

 Na organização do GCA é necessário respeitar duas condições indispensáveis:
1. dar um fim concreto às cargas de treinamento (isto é, deve-se estabelecer sobre quais sistemas energético e fisiológico, sobre quais mecanismos e a que capacidades funcionais deve ser dirigida a carga de treinamento);
2. a formulação exata dos objetivos do treinamento, isto é, o resultado concreto que se quer obter.
     Portanto, na escolha e na organização das cargas de treinamento o ponto de partida é representado:
a. pelos conhecimentos sobre as possibilidades funcionais dos sistemas fisiológicos e energéticos que são principalmente responsáveis pela capacidade especifica do trabalho do atleta;
b. pelas idéias sobre a sua inércia de adaptação;
c. pelos conhecimentos sobre a heterocronia do desenvolvimento das reações de adaptação no âmbito dos diversos sistemas fisiológicos do organismo
4.3. A especificidade das reações do organismo aos estímulos do treinamento
    Trata-se de um fenômeno biológico conhecido que se exprime na transformação das características qualitativas das ações externas exercitadas sobre o organismo em capacidade interna do mesmo organismo (11, 12, 15). A condição para que se produza este fenômeno é representada pelos denominados “resíduos metabólicos", ou pelo acúmulo de metabolitos, isto é pelos produtos do metabolismo, que representam os indutores principais da síntese protéica que ocorre no período de tempo imediatamente sucessivo ao trabalho muscular.
    São estes a determinar em modo especifico qual é o "pool" de proteínas do qual é produzida a síntese em virtude da maior atividade muscular. A síntese protéica diz respeito predominantemente àquelas proteínas que são utilizadas para construir estruturas celulares ativas e enzimas que catalisam as reações bioquímicas das quais dependem as respectivas funções celulares (18, 81). Deste modo é garantida a correspondência qualitativa entre a atividade motora do atleta e o caráter do melhoramento morfo-funcional do seu organismo. Exatamente por isto, na preparação dos atletas de alto nível, é extremamente importante, não só, um elevado potencial de treinamento dos estímulos, como também o caráter qualitativo dos mesmos, isto é, especifico da indução da síntese protéica provocado pelo próprio estimulo (11-13, 69, 100, 101)
    Praticamente, isto demonstra:
1. a necessidade de prever qual será o efeito fisiológico (resíduos metabólicos) da carga de treinamento estabelecido.
2. a importância da organização do estímulo que garante a necessária especificidade do seu efeito de treinamento.
3. a necessidade de escolher aquele regime e aquela duração do período imediatamente sucessivo ao trabalho que são objetivamente necessários para que se desenvolvam e se completem os processos de restauração, e em parte o processo da síntese protéica (11, 12, 18, 82).
4.4. O principio da organização finalizada e programada do treinamento
    O aprofundamento dos conhecimentos sobre os mecanismos fisiológicos do processo de formação da maestria desportiva muda de maneira radical a idéia da organização do processo de treinamento, em particular, o principio analítico-sintetico, que por tanto tempo foi o dominante na teoria do treinamento esportivo. Este é substituído pelo princípio da organização finalizada e organizada ( 10, 11, 48, 69, 99-101).
    Segundo o princípio analítico-sintético, típico da concepção da chamada periodização do treinamento (43), o processo de treinamento é subdividido em elementos distintos, isto é, em microciclos (MC), que são considerados a forma principal de organização de treinamento (7). Esta concepção representava o treinamento como uma soma de microciclos alinhados em uma cadeia. A lógica da sucessão linear desta cadeia era determinada de modo puramente teórico, sem levar em consideração o objetivo geral do processo de treinamento, sem ter uma idéia clara sobre o papel concreto representado por estas ou aquelas "cadeias" de microciclo na sua realização. Destas "cadeias", como em um Lego, eram construídas formas maiores de organização do processo de treinamento, denominadas mesociclo.
    Segundo a concepção da periodização, a dinâmica da forma desportiva deveria ser garantida pelas "ondas" do volume e da intensidade total das cargas de treinamento (43) que eram organizadas seguindo o tradicional principio "complexo", pelo qual, vinham desenvolvidos todos os trabalhos típicos do processo de treinamento simultaneamente (nas distintas unidades de treinamento e microciclos) e paralelamente (nas distintas etapas e no ciclo anual) (43, 57, 73, 77). Atualmente, esta concepção é ultrapassada e não corresponde às exigências do desporto moderno (ler artigo a respeito em SDS- Scuola dello Sport, 41 - 42).
    Segundo a idéia da organização finalizada e programada, o processo de treinamento é considerado não como um somatório composto de pequenas partes (microciclo) combinadas nesta ou naquela sucessão linear, mas como um conjunto monolítico que prevê diversos níveis e que é diferenciado em partes (etapas e microciclos). Os seus conteúdos e a sua organização são determinados pelos objetivos finais e pelos pressupostos do treinamento, baseados nas leis do desenvolvimento do processo de adaptação do organismo a um regime concreto de trabalho muscular. Neste contexto, o microciclo é considerado não mais como o elemento principal estrutural do processo de treinamento (43), mas como e isto deve ser bem claro a forma funcional de organização daquela quota do volume total da carga de treinamento a esse determinada em conformidade com objetivos finais e com a linha estratégica geral da organização do treinamento.
    Neste caso, o fator que forma o sistema é representado pelo objetivo concreto do treinamento que se projeta sobre todas as suas etapas e se reflete nos seus conteúdos e na sua organização (10-13, 48, 69, 99, 100).
    Segundo o principio da organização finalizada e programada, na programação do treinamento, inicialmente, são formulados os objetivos finais da preparação, e, sucessivamente, são escolhidos os conteúdos, o volume e a modalidade de organização dos estímulos de treinamento objetivamente necessários para a sua realização. Portanto, o proceder da programação consiste não em uma formal combinação no tempo de uma "cadeia" de microciclos com nomes diversos (43), mas sobretudo na criação das condições necessárias para alcançar aquele efeito de treinamento que representa o pressuposto para a realização dos objetivos finais da preparação do atleta.
    Esta é a base sobre a qual é tomada a decisão sobre a escolha dos conteúdos e das formas de organização do processo de treinamento adequados.
    Então, não é difícil notar que o principio da organização finalizada e programada não somente muda de modo radical as idéias sobre os princípios e sobre a tecnologia da organização do processo de treinamento, mas a leva ao nível de decisões quantitativas (parâmetros mensuráveis) que se baseiam sobre o patrimônio da ciência moderna.
5. As partes principais da moderna teoria e metodologia do treinamento desportivo
    Neste parágrafo trataremos principalmente a parte central da TMDT que diz respeito diretamente ao fenômeno do treinamento e estuda principalmente os seus aspectos científicos aplicativos. Não trataremos os aspectos sociais, educativos e didáticos, médicos-higiênicos, técnicos, etc., que já foram analisados detalhadamente em outras publicações (43, 57, 72-74, 77).
    Portanto, a moderna TMDC deve compreender estas componentes principais:
• a teoria do training,
• a teoria da carga de treinamento,
• a teoria da técnica desportiva,
• a teoria da organização do treinamento,
• a teoria da programação do treinamento,
• a teoria do controle do processo de treinamento.
5.1. A Teoria do training
    O training é a componente principal do processo de treinamento que garante o fenômeno da especialização morfo-funcional do organismo do atleta e o aumento do seu nível de capacidade especial de trabalho (10, 95, 99, 101). A teoria do training concentra em si um sistema de conhecimentos dos fatores que determinam a passagem do organismo de um estado funcional a outro, produto do efeito dos estímulos do treinamento.
    A teoria se baseia nos conhecimentos biológicos que dizem respeito, sobretudo, às leis da adaptação a breve e a longo prazo do organismo a uma atividade muscular intensa. E se baseia no estudo do mecanismo fisiológico do fenômeno ação do treinamento - efeito do treinamento (10,11,18,19,44,67,71,81, 85, 89, 99).
5.2. A teoria da carga do treinamento
    Segundo esta, a carga de treinamento é considerada uma categoria fisiológica, um meio fisiológico de ação sobre o organismo, exercitada por um trabalho muscular especializado que se manifesta no organismo sob a forma de reação morfo-funcional de adaptação, caracterizada por uma determinada profundidade e estabilidade (10-13, 71, 89, 99, 105, 108, 109). Inclui as bases objetivas (princípios, condições, conselhos) que são necessárias para criar, no treinamento, as condições ótimas para a realização do fenômeno training, isto é, para a definição dos conteúdos, do volume e da organização dos efeitos do treinamento em todos os níveis e em todas as formas de organização do processo de treinamento. Baseia-se nas tendências da dinâmica do estado funcional do atleta, dependente da carga de treinamento (10, 11, 14,16, 48, 69, 100),
5.3. A teoria da técnica desportiva
    Inclui e estuda dois conceitos principais:
• aquele da técnica desportiva;
• aquele da maestria técnico-desportiva do atleta.
    Por técnica desportiva, entende-se um sistema de movimentos típico de um concreto exercício de competição, a sua composição motora e a sua estrutura, e representa o objeto de estudo da biomecânica (8, 10, 27, 70). Por maestria técnico-desportiva se entende a capacidade do atleta de utilizar eficazmente o seu potencial motor nas condições de treinamento e competição. Disto deriva que a maestria desportiva não é um estado que é alcançado para sempre, mas é o resultado atual de um processo continuo e interminável de evolução (10, 11).
5.4. A teoria do controle do processo de treinamento
    Representa o conjunto dos conhecimentos metodológicos que dizem respeito às regras (os princípios) da organização do processo de treinamento em todos os seus níveis. Baseia-se nas leis da adaptação do organismo em presença de uma atividade muscular intensa, nas leis especificas do processo de formação da maestria desportiva e da especialização morfo-funcional do organismo (8-13, 94, 97, 99, 100, 108, 109). Inclui os fundamentos e os conselhos para a criação das condições ótimas destas leis e o correspondente modelo geral, ou os modelos, da importação do sistema de treinamento nas diversas formas de organização ( trataremos isto em detalhes mais adiante).
5.5. A teoria da programação do processo de treinamento
    Elabora os fundamentos (ordenamentos principais) da sistematização dos conteúdos do processo de treinamento em conformidade com os objetivos finais da preparação do atleta, com o calendário de competições e com os princípios específicos que determinam as formas racionais, de organização das cargas de treinamento no âmbito dos períodos concretos de tempo ( 10,11, 44, 48, 68, 94-9799, 108, 109).
5.6. A teoria do controle do processo de treinamento
    Inclui os fundamentos e os conselhos para a organização do controle do andamento do processo de treinamento, e da sua correção, quando necessário, em conformidade com os critérios de eficácia e com os modelos estabelecidos antecipadamente (2, 5, 10, 42, 44, 62, 82, 99, 108, 109).
6. A estrutura dos conceitos principais da teoria do treinamento desportivo.
    Na figura 5 está representado o quadro dos conteúdos e a estrutura dos conceitos da TMTD que se baseiam na sua destinação pratica e têm em conta a exigência da capacidade profissional do treinador. Trata-se de conceitos que além de ter sua importância cientifica e teórica, são destinados a solicitar e a sistematizar o pensamento profissional (teorico-metodologico) do treinador (10, 13, 39).

 
Figura 5. Estrutura dos conceitos principais da concepção da programação do treinamento

    Por hierarquia dos objetivos finais entendemos o conjunto dos mais importantes parâmetros (ou resultados), classificados de acordo com a sua importância, que devem ser alcançados em uma determinada sucessão.
    Por exemplo, depois de haver estabelecido qual deve ser a entidade do aumento do resultado desportivo (que é o objetivo final mais importante), o treinador deve definir exatamente os requisitos aos quais devem corresponder o melhoramento da capacidade de competição e da capacidade técnico-tatica do atleta, o aumento da potência de trabalho do organismo no regime motor especifico, e também as mudanças do nível de preparação física especial para obter o objetivo.
    No controle do andamento do processo de treinamento, o treinador, nas suas reflexões, deve seguir uma sucessão inversa. Porque, se não garantirá o necessário aumento do nível de preparação física especial do atleta, não poderá resolver os problemas do aumento de maestria técnico e tática do atleta e aumento da potência de trabalho do organismo. Ao mesmo tempo sem realizar esta condição, não lhes será possível assegurar a necessária estabilidade na competição. Portanto, se um dos objetivos parciais não é realizado, ou se não é realizado completamente, a probabilidade de alcançar o mais importante objetivo final (melhora da performance) diminui notavelmente.
    As características do 'modelo' dos objetivos finais são os mais importantes parâmetros do nível de preparação especial do atleta que devem ser alcançados no treinamento; ao mesmo tempo representam os critérios para a avaliação da sua eficácia. Atualmente em práticas é possível definir quantitativamente modelos dos objetivos finais, e isto permite levar o processo de treinamento a um nível que prevê um controle e uma direção objetiva do seu andamento.
    Por concepção metodológica entendemos o sistema das idéias sobre a modalidade de organização do processo de treinamento que exprime o projeto geral do treinador sobre a organização da preparação do atleta. As concepções metodológicas, normalmente, estão ligadas a nomes de grandes treinadores, por ex:
    Counsilman na natação, Lydiard, Cerrutty, Gerscheler, Dijackov, Nikiforov, Alekseev no atletismo, Adam na canoagem, etc...
    São muito conhecidas também concepções científico-teóricas (10, 47, 87, 88, 92). Por exemplo: a concepção da organização complexa do treinamento, segundo a qual os trabalhos necessários são desenvolvidos paralelamente utilizando meios e métodos destinados à solução de um espectro restrito de problemas. Sucessivamente, através do denominado treinamento integrado, os resultados alcançados são reunidos em um conjunto caracterizado pela harmonia e a eficácia da sua expressão complexa (53, 57);
• a concepção analítico-sintética da "periodização do treinamento", segundo a qual, unindo os microciclos são construídas cadeias que, sucessivamente, a sua vez, vêm reunidas em estruturas maiores (43);
• a concepção da organização do treinamento anual com uma distribuição uniforme das cargas (92);
• a concepção biologicamente argumentada do treinamento desportivo;
• o sistema a blocos, que prevê uma etapa de concentração das cargas da preparação física especial e a utilização, do seu efeito retardado a longo prazo nas etapas de competição (10, 11).
    A linha estratégica geral do treinamento é representada pela idéia metodológica central que determina o fim principal da organização do processo de treinamento em todas as suas etapas. Esta idéia realiza na prática a concepção metodológica da preparação do atleta, e reúne todas a suas componentes com o fim de atingir o objetivo final. A linha estratégica geral do treinamento é elaborada pensando nos objetivos finais e prevê, antes de tudo, uma sucessão racional na preparação do atleta às competições, através do aumento planificado da potência especifica de trabalho do organismo, baseado no melhoramento coordenado do nível de preparação física especial do atleta e da sua maestria técnico-tatica. Esta determina as decisões do treinador, no tocante a todos os problemas de organização do processo de treinamento em todas as suas etapas.
• A linha estratégica geral pode ser representada, por exemplo, pela tendência ao aumento da velocidade sobre a distância ou da intensidade dos estímulos de força no exercício de competição no ciclo anual (fig 6).

 
Figura 6. Exemplo da expressão da linha Estratégica Geral

    Espelhando-se na concepção metodológica geral, o objetivo principal final (of) se projeta em todas as etapas do ciclo anual na figura: 1-4 e se exprime nesse sob a forma de uma idéia guia da organização dos seus conteúdos. Além disso, em cada etapa, o nível de velocidade ou de intensidade (potência) planificado representa o relativo objetivo final que lhe determina os conteúdos e a organização (11, 99, 108, 109).
    A organização do processo de treinamento compreende toda a bagagem dos conhecimentos que dizem respeito à tecnologia da organização do treinamento (as orientações principais, os conselhos metodológicos, as regras e as formas de organização do processo de treinamento). Baseia-se nos princípios do treinamento e nos princípios finais da preparação do atleta e prevê a utilização racional e sistemática de todo o conjunto das cargas, entendendo, com isso, a combinação e a sucessão das cargas que garantem o necessário efeito do treinamento com um dispêndio ótimo de energia e de tempo da parte do atleta.
    A organização do processo de treinamento prevê a solução de dois problemas fundamentais:
a. a utilização sistemática dos meios escolhidos;
b. a otimização dos conteúdos das cargas de treinamento nas formas concretas espaço-temporais de organização do treinamento.

 Aqui é importante chamar a atenção que a carga de treinamento não pode existir e não pode ser considerada sem fazer referencia a um período de tempo, enquanto a sua sistematização (organização) não pode ser realizada sem levar em consideração os tempos reais. O tempo representa um dos instrumentos mais importantes de controle dos estímulos de treinamento sobre o organismo, já que determina, seja a sua duração, seja o regime da sua repetição cíclica.
    Portanto, o tempo e a modalidade de organização das cargas de treinamento representam os principais parâmetros interdependente das formas de organização dos conteúdos do processo de treinamento. Existe de fato, por um lado, as necessidades da realização dos objetivos finais da preparação do atleta que pedem um determinado período de tempo para que seja efetuado o volume da carga necessária e para a organização racional de todos os conteúdos do treinamento. Por outro, se consideramos as condições reais e o calendário de competições , o tempo representa o fator limitante da organização do treinamento, influenciando de um determinado modo, a sua escolha. Então, o conceito de forma de organização do treinamento ocupa a posição central no sistema das idéias sobre a tecnologia da programação do treinamento. A competência do treinador se exprime pela capacidade de encontrar uma forma racional de organização do treinamento em uma situação real e traduzi-la em um programa concreto (10,11).
    Do ponto de vista organizacional e temporal são individualizadas seis formas principais de organização do treinamento (fig. 5) : o ciclo anual, o grande ciclo de adaptação (CGA), o microciclo (MC), o treinamento de um dia, a unidade de treinamento e a sessão de treinamento (10-13). Duas destas formas, o dia de treinamento e a sessão de treinamento, pedem uma explicação particular:
• o dia de treinamento é uma parte da organização do processo de treinamento que não foi ainda suficientemente estudada. Esta forma de treinamento prevê o desenvolvimento de duas a três unidades de treinamento diária. Os seus conteúdos e a sua organização são determinados com base nos fins prioritários das cargas de treinamento administradas no dia anterior e daquelas que estão planificadas para o dia sucessivo.
• a sessão de treinamento é o período de tempo necessário à realização, sem interrupção, dos meios de treinamento, normalmente com o mesmo fim prioritário, com base naquela relação reciproca entre as reações a curto prazo do organismo que transforma as repetições do trabalho muscular em uma quota de estímulos de treinamento com um fim concreto. Uma sessão de treinamento pode ser constituída por uma parte da unidade de treinamento, ou por toda a unidade de treinamento que faz parte de uma jornada de treinamento. Na moderna TMTD representa uma forma muito importante da organização do processo de treinamento.
    A individuação desta forma de organização do processo de treinamento é determinada sobretudo pelo objetivo de garantir de modo ótimo um estimulo de treinamento elevado sobre o organismo, através de uma carga de volume relativamente baixa com o mínimo dispêndio de tempo e de energia da parte do atleta, e também dos requisitos aos quais deve corresponder a cultura metodológica do treinamento :
• dosagem dos exercícios,
• regulação da sua variação ou da sua alternância,
• duração das pausas de recuperação e caráter do repouso entre as repetições do estimulo.
Os princípios do controle e da correção do processo de treinamento em quanto uma das mais importantes condições de realização da concepção da sua programação foram analisados por vários autores (5,10 19, 61, 62, 74, 94--97, 108, 110).
7. Os pressupostos para elaboracao de um sistema de treinamento
    Estes são os princípios metodológicos que devem determinar a organização do treinamento.
1. A forma principal de organização do treinamento é representada pelo grande ciclo da adaptação, cujo objetivo consiste no aumento contínuo do nível da maestria esportiva sobre a base da realização da reserva atual de adaptação (RAA) do organismo.
2. O mais importante resultado final do treinamento é aquele que determina principalmente o aumento da maestria desportiva (performance) e é representado pelo aumento da potência do trabalho do organismo no regime motor especifico.
3. No processo de treinamento, o principal objeto de controle é representado pela dinâmica do estado funcional do atleta que é avaliada com base nos parâmetros funcionais do seu organismo, levando em consideração a eficácia da maestria técnico-tática.
4. A concepção metodológica da preparação baseia-se nos seguintes princípios lógicos: sem o aumento do nível da preparação física especial do atleta não se pode esperar um notável progresso da maestria técnico-tática, um aumento da potência de trabalho do organismo e da velocidade de execução do exercício de competição, enquanto sem um elevado nível destes parâmetros baseados num suficiente nível de preparação física especial, torna-se pouco provável o melhoramento da capacidade de competição e o aumento planificado do resultado desportivo.
5. A linha estratégica geral do treinamento prevê a sintonia com o objetivo principal em três direções fundamentais do próprio treinamento, nas quais encontramos uma ampla gama de responsabilidades parciais:
o o incremento do potencial motor do atleta ( responsabilidade da preparação física);
o o melhoramento da capacidade do atleta de utilizar eficazmente o potencial motor no exercício de competição (responsabilidade da preparação técnico-tática);
o a melhoria do nível e da estabilidade da maestria desportiva ( responsabilidade da preparação para a competição e psicológica).
6. O principal objetivo metodológico do treinamento consiste na organização, isto é, sistematização no tempo dos seus conteúdos, em modo tal que, o trabalho dirigido ao aumento da potência de trabalho especifico do atleta, não seja limitado pelas suas possibilidades condicionais e pela técnica desportiva, e, ao mesmo tempo não impeça o trabalho sobre a técnica e sobre a velocidade do exercício da competição.
7. O sistema de treinamento baseia-se sobre os seguintes princípios (10-13, 94-97, 99, 100, 106,109) :
a. o principio segundo o qual as indicações metodológicas para a organização do treinamento devem corresponder às leis do desenvolvimento do processo de adaptação do organismo a uma atividade muscular intensa;
b. o principio da sistemática dos estímulos de treinamento sobre o organismo;
c. o principio da sobreposição das cargas com diversos fins de treinamento;
d. o princípio da prioridade da preparação física especial no sistema de treinamento.
8. As orientaçoes principais da programacao do treinamento
    Os resultados metodológicos do material exposto acima manifestam-se através das principais orientações que representam as regras concretas da organização do processo de treinamento ( 10, 11, 94-97, 99, 100, 106, 109).
1. A orientação para a realização da RAA do organismo se endereça a uma organização da carga de treinamento baseada nas leis da adaptação do organismo a um trabalho muscular especializado.
2. A orientação à utilização sistêmica dos meios e métodos de treinamento garante que se obtenha a necessária especificidade do efeito do treinamento de todas as cargas.
3. A orientação para a manutenção do potencial de treinamento da carga se direciona-se a um aumento planificado da intensidade e da especificidade dos efeitos de treinamentos sobre o organismo, assim que aumenta o nível da sua capacidade de trabalho.
4. A orientação à concentração de utilização dos meios da preparação física especial se endereça à criação de um efeito de treinamento concentrado sobre o organismo com o objetivo de aumenta a minimização r notavelmente a sua capacidade de trabalho.
5. A orientação a uma separação cronológica dos volumes das cargas de diversos fins dimensiona-se à eliminação ou à minimização das relações recíprocas negativas entre os efeitos do treinamento dos estímulos com diversos fins prioritários, por exemplo: estímulos dirigidos à preparação física especial ou estímulos dirigidos ao melhoramento da técnica ou aumento da velocidade de execução do exercício de competição.
6. A orientação à antecipação da utilização da preparação física especial (Pfe) coloca em evidencia que a Pfe representa o papel principal no aumento dos resultados dos atletas de alto nível, e se endereça àquela organização de treinamento segundo a qual a Pfe precede o trabalho de polimento sobre a técnica e sobre a velocidade de exercício de competição e assegura as condições necessárias para o melhoramento seja de uma ou da outra.
7. O ordenamento à utilização do efeito retardado do treinamento a longo prazo do volume concentrado das cargas da Pfe se endereça à criação das condições favoráveis à preparação técnica, à preparação de velocidade, e à participação nas competições.
8. A orientação à modelização (reprodução) no treinamento da atividade da competição se endereça à reprodução em treinamento do regime de trabalho do organismo nas condições de competição com um gradual (de acordo com a etapa de treinamento) aumento de intensidade das solicitações de força, respeitando o regulamento das competições. Este modo representa uma forma muito eficaz de preparação especializada do atleta que melhora o nível de preparação física, psicológica, técnico -tática e de competição.

 
Figura 7. Modelo Geral do Sistema de Treinamento do CGA

9. O modelo geral do sistema de treinamento no grande ciclo de adaptação
    O modelo geral do sistema do treinamento no grande ciclo de adaptação (10, 13, 48, 69, 108, 109), representado na figura 7, foi elaborado no fim dos anos 70 com base nas pesquisas organizada com este fim (2, 4, 16, 21, 24, 41, 46, 48, 49, 52, 69, 108, 109). Este modelo foi aperfeiçoado continuamente em razão da contribuição de informações cientificas (sobretudo fisiológicas) e prático-metodológicas , tendo em consideração os conselhos e as observações dos treinadores e de especialistas, expostas durante congressos e seminários de estudos internacionais em mais de quinze países .
1. O modelo compreende estas componentes principais:
o O modelo da dinâmica da velocidade ou da potência de trabalho do organismo no regime motor especifico (W),
o O modelo da dinâmica do estado funcional do atleta expresso através dos mais importantes parâmetros funcionais (f)
o O modelo do sistema das cargas (blocos A, B e C).
O modelo prevê estes parâmetros :
o W1 - o nível máximo da velocidade ou da potência de trabalho do organismo alcançado na precedente etapa de preparação;
o W2 - o nível planificado da velocidade ou potência de trabalho do organismo;
o f1 - o nível máximo dos parâmetros funcionais mais importantes alcançados na precedente etapa de preparação.
o f2 - o nível planificado dos parâmetros funcionais,
o W e f - o aumento planificado da velocidade ou da potência de trabalho e dos parâmetros funcionais do organismo;
o A - as cargas da preparação física especial,
o B - o trabalho de velocidade e o trabalho técnico,
o C - as cargas de competição,
o P - o volume total das cargas
o t - a duração do grande ciclo de adaptação.

 

2. O grande ciclo de adaptação é dividido em três blocos (etapas) que, na sua sucessão, são reunidos em uma determinada lógica:
o O bloco A (etapa de base) é dedicado à ativação dos mecanismos do processo de adaptação e à orientação deste à especialização morfo-funcional do organismo na direção necessária ao trabalho no regime motor especifico. O objetivo principal deste bloco é o aumento do potencial motor do atleta, considerando a sua sucessiva utilização na competição.
o O bloco B (etapa especial) é principalmente dirigido ao desenvolvimento da potência de trabalho do organismo no trabalho motor especifico em condições correspondentes àquelas de competição. O objetivo principal deste bloco consiste na assimilação da capacidade de utilizar o crescente potencial motor em condições de intensidade gradualmente crescente de execução do exercício de competição. Nesta etapa deve ser prevista a participação em competições.
o O bloco C (etapa das competições mais importantes) prevê a conclusão do ciclo de adaptação e a passagem do organismo ao máximo nível da potência de trabalho no regime motor especifico. O objetivo principal deste bloco consiste na assimilação da capacidade de realizar, com a máxima eficácia, o potencial motor nas condições próprias de competição.
No modelo do GCA, as curvas A,B e C simbolizam o diverso objetivo do efeito de treinamento das correspondentes cargas de treinamento em uma determinada etapa de treinamento, mas não o seu volume.
3. A idéia da organização do GCA se exprime, em uma determinada sucessão, na intensificação do regime de trabalho do organismo que inicia com a utilização dos meios da Fe (bloco A) e sucessivamente é continuada com os meios da preparação técnica e da velocidade (bloco B), e enfim, com a atividade de competição (bloco C). No momento em que os meios da Fe transferem ao exercício de competição o seu papel de fator de intensificação no processo de treinamento, começam a desenvolver a função de manutenção. Além disso no bloco B é melhorada não só a velocidade de execução do exercício de competição, quanto a capacidade do organismo do atleta de desenvolver potência no regime especifico de trabalho. Isto conclui a preparação da base energética para o trabalho de máxima intensidade (potência) na etapa de competição (bloco C).
O aumento da potência de trabalho do organismo deve ser regulado e dosado rigorosamente de modo a não provocar fadiga excessiva e prolongada (over training) do organismo. Então é oportuno distinguir três níveis de potência (intensidade) de trabalho:
o a intensidade ótima com a qual é desenvolvido o volume principal da carga de treinamento na etapa de base;
o a intensidade máxima que o atleta tem possibilidade de alcançar, em um dado momento na etapa especial, graças a uma preparação adequada que não provoque fadiga excessiva das funções orgânicas e a piora da estrutura motora dos movimentos;
o a intensidade limite que representa o objetivo principal do treinamento e que deve ser alcançada no momento das competições mais importantes.
4. É importante salientar que o grande ciclo de adaptação não prevê um período preparatório e um período de competição na sua interpretação tradicional, que dividia o processo de treinamento em duas partes praticamente pouco coligadas entre elas: uma, a preparação com grande volume de cargas de treinamento, a outra a participação nas competições.
Concretamente, isto se exprimia na idéia segundo a qual era como se, no período preparatório, o atleta 'acumulasse', e no período de competição 'realizasse' o seu potencial físico, isto é, o mantivesse e o recuperasse depois das competições, sem desenvolvê-lo. Por isso, segundo esta idéia, o atleta deveria desenvolver um elevadíssimo trabalho de cargas no período preparatório, para criar uma reserva de capacidade de trabalho que deveria ser suficiente até o final do período de competição.
Uma interpretação assim grosseira da idéia principal do treinamento desportivo, baseada sobre a concepção da periodização de Matveev, excluía uma utilização eficaz das possibilidades da adaptação do organismo do atleta e comportava um dispêndio enorme e irracional de energia. Isto orientava o processo de melhoramento do sistema prático de treinamento para uma direção caracterizada pelo aumento do volume de treinamento (43).
5. O grande ciclo da adaptação é uma forma completamente nova de organização do treinamento, desportivo. Ele prevê uma relação orgânica, reciproca e interdependente entre a atividade de competição e o desenvolvimento constante do processo de adaptação. Em outros termos, as competições e as atividades imediatas a essas são inseridas no processo contínuo de melhoramento morfo-funcional do organismo, no qual representam o papel de um potente fator de adaptação. Os deveres deste fator consistem na intensificação máxima do regime de trabalho do organismo na fase conclusiva do ciclo de adaptação, fato que leva o atleta ao máximo nível funcional, no qual se realiza o principal objetivo da sua preparação.
6. A novidade principal do GCA é que inclui uma nova etapa não tradicional (bloco B), que tem um papel extremamente importante no processo de treinamento. A sua função consiste na passagem gradual através o trabalho especializado de treinamento, das soluções dos deveres da Fe à participação nas competições. Na figura 7, a este bloco corresponde o ponto de mudança da curva da intensidade (potência) (W), isto é, o ponto no qual inicia-se a intensificação do trabalho do organismo no regime especifico do exercício de competição.
Além disso e isto deve ser ressaltado em modo particular, o bloco B permite de utilizar o sistema de treinamento sobre a forma de GCA no desportos nos quais encontramos estrutura e duração diversas do calendário de competição. Por exemplo, no caso de uma estação competitiva longa, o sistema de preparação prevê um só ciclo (futebol, ciclismo de estrada, etc.), a participação as competições podem ser iniciadas na primeira metade do bloco B. Quando em um ano de treinamento são previstos duas etapas de competição, na primeira, a duração do bloco A pode ser aumentada através uma ligeira redução da duração dos blocos B e C. Na segunda etapa, ao contrario, a duração do bloco A pode ser reduzida, com um aumento na intensidade do trabalho correspondente, e, de acordo com o objetivo da preparação, pode ser aumentada a duração dos blocos B e C. Porém em todos os casos deve ser mantida a estrutura geral do grande ciclo de adaptação (2, 13, 99, 100).

7. A concepção metodológica da organização do GCA prevê o emprego concentrado das cargas da Fe no bloco A. Este método leva à diminuição dos parâmetros funcionais da capacidade especifica de trabalho do atleta (f). Portanto, neste período torna-se impossível um melhoramento eficaz dos mecanismos de precisão da técnica desportiva e da velocidade de execução do exercício de competição. Porém, a diminuição dos parâmetros funcionais representa um fenômeno temporário(10-14). Depois da etapa de utilização do volume concentrado das cargas da Fe pode-se observar o aumento do efeito retardado de treinamento a longo prazo que se exprime em um aumento notável e estável dos parâmetros funcionais, superando em muito os seus níveis iniciais. Por esse motivo, as cargas da Fe e aquelas dirigidas ao aumento da técnica e da velocidade de execução da habilidade de competição devem ser separadas no tempo.
Em outras palavras, as cargas da Fe precedem o trabalho de polimento da habilidade e da sua velocidade de execução, isto é, antecipam cronologicamente este trabalho. Neste caso, as cargas da Fe preparam o organismo para um trabalho de elevada intensidade, enquanto o trabalho sobre a técnica e a velocidade da habilidade de competição se desenvolve nas condições da realização do efeito retardado do treinamento de longo prazo das cargas da Fe, isto é, em condições muito favoráveis.
Então, durante o planejamento e a organização do treinamento, o treinador deve pensar tanto no valor absoluto dos resultados planejados, quanto no seu aumento concreto que é definido como o mais importante objetivo final. Por esse motivo, para alcançar este fim, o treinador deve prever não só o aumento da potência de trabalho do organismo (W) e dos seus principais parâmetros funcionais (f), mas também definir os valores concretos do seu aumento (W e f), porque isto representa a base objetiva para a escolha dos conteúdos, da organização e do volume das cargas de treinamento. Esta forma de ver permite definir da maneira mais clara possível os requisitos aos quais deve corresponder a escolha dos meios e das possibilidades metodológicas para a realização prática dos aumentos pré estabelecidos. Isto favorece um incremento notável da eficácia do treinamento através da sua passagem gradual ao nível da programação quantitativa, baseada nos, parâmetros objetivos e mensuráveis, com uma diminuição simultânea de dispêndio de tempo e energia da parte do atleta (2, 4, 13, 14, 16, 17, 24, 26, 46, 79).
    As idéias e os princípios do sistema de treinamento analisados neste artigo foram verificados, corrigidos e completados, seja em uma tese de pesquisa, seja nas condições da pratica desportiva, por exemplo, na canoagem (45, 51, 63, 66, 75, 83), nos saltos e nos lançamentos (2, 30, 46, 52, 76) e nas especialidades de corrida de velocidade (20, 23, 31, 37, 41, 50, 53, 59, 68, 80), no levantamento de peso (4, 21, 26), nos desportos de lutas (3, 36, 65), na ginastica rítmica desportiva (55), no ciclismo (1, 44, 54, 61), no ski de fundo (22, 34, 40, 42), na patinação de velocidade sobre o gelo (24), na natação (33, 39, 65) e nos jogos desportivos (3, 7, 17, 49, 56).
    Estes trabalhos compreendem um amplo material experimental que especifica e amplia os conceitos fundamentais da teoria e metodologia cientifica do treinamento desportivo que foram expostos em linha geral neste artigo e, ao mesmo tempo, cria os pressupostos para a passagem ao nível quantitativo da programação do treinamento.
    Estes princípios fundamentais e estes conselhos metodológicos para a organização do treinamento em um ciclo anual foram utilizados com sucesso na preparação de varias equipes e seleções nacionais de vários países.