Retomando a discussão sobre o calendário do futebol brasileiro

Diferente do que ocorre na atualidade, datas deveriam dar preferência para os clubes
Luis Filipe Chateaubriand

Ao reiniciar a elaboração de artigos semanais para a Universidade do Futebol, volto a comentar o assunto que, do ponto de vista da gestão, é o mais importante: a necessidade de se reformar o calendário de nosso futebol.

A programação dos jogos do futebol brasileiro é, inequivocamente, elaborada de forma pouco racional e não é pautada pelos critérios do profissionalismo. Se houve algumas melhorias nos últimos dez anos, estas são tópicas, pontuais, tímidas, insuficientes. Continuamos tendo, como há acontecido historicamente, um calendário para o futebol “mais furado do que queijo suíço”.

No ano de 2009, escrevi e publiquei o livro “Futebol Brasileiro: Um Projeto de Calendário”. As principais propostas contidas no livro foram objeto de artigos para a Universidade do Futebol.

Brilhantes cabeças do jornalismo esportivo brasileiro gostaram das propostas do livro. Não que concordassem com tudo que ali foi escrito, mas havia consentimento com os pontos fundamentais. Também houve críticas, e uma delas, em especial, chamou-me atenção.

A crítica foi feita pelos jornalistas Paulo Vinícius Coelho, o PVC, da “Folha de São Paulo” e dos Canais ESPN, e Wanderlei Nogueira, da Rádio Jovem Pan.

Qual a crítica?

Em minha visão, a razão de ser do futebol são os clubes, mais do que as seleções. Cada um de nós gosta de torcer por sua seleção preferida, é verdade. Mas gostamos, ainda mais, de torcer por nossos clubes de coração. É a paixão pelos clubes, e não pelas seleções, que faz o futebol ser adorado como é.

Dizia eu, em meu livro e nos artigos, que se são os clubes que fazem o futebol ser o que é, as datas do calendário em seu período regular deveriam ser dos clubes, não das seleções. Assim, as equipes nacionais só estariam em atividade nos períodos em que as agremiações não estivessem jogando – essa era a proposta.

Desta forma, acabariam as populares “datas Fifa”, em que há jogos de seleções em meio à temporada regular dos clubes. Estes períodos, pelo que propunha, deixariam de ser das seleções, e seriam dos clubes. Ainda pela proposta, as seleções só estariam em atividade nos meses de junho e julho, quando, pelo calendário europeu (ou mundial, como prefere o jornalista Juca Kfouri), os clubes não estão em competições oficiais.

Pois o que o PVC e o Wanderlei Nogueira me fizeram enxergar é que, embora minha argumentação de priorizar os clubes seja correta, eu estava “exagerando na dose”: alguns jogos de seleções ao longo da temporada são necessários, as “datas Fifa” devem continuar existindo, mesmo que a quantidade sofra uma pequena redução.

Existem interesses comerciais das federações nacionais, que têm uma receita grande com os jogos das seleções, que precisam ser contemplados. Ademais, estas equipes precisam ter continuidade de jogos para bem exercerem o seu trabalho, e só com partidas ao longo da temporada poderão fazer isso.

Obrigado, PVC e Wanderlei Nogueira! Aprender com as boas ideias de outrem é exercitar o próprio senso crítico!

Continuo achando que, ao se elaborar o calendário da temporada, os clubes devem ter prioridade em relação às seleções. Mas passei a achar, também, que as seleções devem fazer jus a algumas datas no calendário da temporada básica, embora não muitas, mas que atendam aos interesses comerciais que norteiam as federações nacionais e às próprias necessidades técnicas. Como diz o adágio popular, no equilíbrio está a virtude.

Estou escrevendo novo livro a respeito, de acordo com as diretrizes ainda citadas. E, nas próximas semanas, os artigos na Universidade do Futebol serão dedicados a esmiuçar esta nova proposta.

*Luis Filipe Chateaubriand é autor do livro “Futebol Brasileiro: Um Projeto de Calendário”, Mestre em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, MBA Executivo pela COPPEAD da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professor de Administração da Universidade Estácio de Sá.