Um relato sobre o processo de captação de talentos no futebol

Muitos “olheiros” têm baseado seus trabalhos apenas na observação como modelo empírico, sem utilizar critérios ou protocolo de avaliação com bases científicas
Fabrício Moreira*

Um dos aspectos mais importantes dos grandes clubes de futebol está relacionado à captação de talentos para compor suas categorias de base, e posteriormente formar esses atletas para ingressarem no profissional. Para entendermos melhor os caminhos atualmente traçados por esses candidatos a futuros atletas de futebol precisamos analisar as formas que costumam chegar esses garotos até os clubes brasileiros e iniciar os seus treinamentos junto às equipes de base.

Considerando que hoje esse processo de detecção difere em muito daqueles praticados anteriormente, e que cada vez mais, tem se tornado precoce e competitivo, em que a concorrência chega a ser absurda. Se pudéssemos ter acesso aos números de garotos avaliados anualmente nos grandes clubes em relação aos selecionados, chegaríamos certamente a esta conclusão.

O objetivo deste texto é relatar os diversos mecanismos de captação de talentos em prática nos grandes clubes do futebol profissional brasileiro. Dentre os mecanismos, destacamos cinco principais e dois secundários. Podemos destacar alguns dos principais: as avaliações “peneiras”; campeonatos e jogos amistosos; indicações; escolas licenciadas “franquias” e os observadores técnicos. Entre as secundárias, destacamos: as clínicas de futebol e o intercâmbio internacional.

As chamadas “peneiras” são um dos mecanismos mais conhecidos e utilizados no meio do futebol. Porém, é um processo empírico, baseado na observação dos treinadores em uma única situação (muitas vezes apenas de jogo e de curta duração). Neste caso, muitos clubes pré-selecionam alguns garotos para continuarem os testes por pelo menos uma semana no clube, ou mais um dia, no mínimo.

Uma das fontes de descoberta de novos talentos está nas diversas competições de base espalhadas pelo Brasil. Nelas os “olheiros” identificam garotos de bons níveis que podem integrar as categorias de base dos clubes. Muitos empresários/agentes também utilizam esse mecanismo como forma de captação para posteriormente intermediar junto aos clubes. Os jogos amistosos realizados com outros clubes/escolas tendem a ser outra forma de identificar atletas oportunizando a participação de um número maior de jovens ao invés de indicar um ou outro apenas.

Após vigorar a Lei Pelé Nº. 9615, a participação de “procuradores” no futebol tem sido cada vez maior. Assim como os clubes, os empresários se tornaram representantes e intermediadores de atletas desde as mais precoces idades. Deste modo, os clubes se viram obrigados a firmar parcerias com esses agentes.

As indicações, sem dúvida, têm se tornado uma das melhores formas de captação de talentos no futebol. Muitas vezes são garotos que já passaram por etapas anteriores e por outros clubes. Possuem uma experiência e um nível de qualidade maior, e por isso estão mais preparados para enfrentar as rotinas de formação de um atleta de base.

Atualmente, os grandes clubes brasileiros têm institucionalizado as “escolas licenciadas” que funcionam como franquias ou chamadas escolas oficiais de futebol. Esta também tem sido uma maneira de avaliar e captar novos talentos para as categorias de base. Esta proposta tem atraído muitos garotos a se matricularem nas escolas oficiais com o objetivo de se tornarem atletas de base e futuramente profissionais dos clubes.

Por último, dentre as principais, estão os observadores técnicos, na maioria das vezes, ex-atletas dos clubes que são contratados pelo departamento de futebol para observar garotos por todo o Brasil. Os clubes possuem projetos para constituir uma espécie de setor de captação autônomo. Pessoas com experiência de atletas e treinadores para ocuparem essa função e compor a equipe de trabalho dos clubes brasileiros. Muitos destes “olheiros” têm baseado seus trabalhos apenas na observação como modelo empírico, sem utilizar critérios ou protocolo de avaliação com bases científicas que possam identificar e selecionar novos talentos.

Hoje, muitos clubes possuem projetos de intercâmbio e clínicas de futebol como forma de sustentação financeira com interesses econômicos, nos quais surgem garotos com potencial para integrarem as equipes de base dos clubes. Entre eles, atletas estrangeiros que podem ser inscritos nas federações e participam de competições oficiais. Os garotos estrangeiros vêm ao Brasil principalmente com objetivo de aprenderem e aperfeiçoarem a prática do futebol.

Ao considerar os mecanismos de captação de atletas no futebol apresentados nesse texto, como sendo de extrema importância para os clubes, assim como o processo de formação desses potenciais atletas, torna-se necessário um estudo mais apurado sobre os critérios de captação de talentos dos principais clubes do futebol brasileiro, a fim de precisar melhor essas formas de identificação do talento. Além disso, minimizar a margem de erros na tomada de decisão no momento da escolha e até criar-se, talvez, um protocolo de detecção no futebol com base nos critérios técnicos utilizados pelos profissionais que desempenham essa função, seja por parte dos observadores técnicos ou empresários.

Destas questões, podemos vislumbrar ao menos dois estudos que se relacionam ao processo de captação mais eficiente, ou seja, o mecanismo que mais aprova atletas para as categorias de base dos grandes clubes brasileiros. E ainda, identificar características particulares nos métodos adotados pelos profissionais envolvidos nesta função nos clubes de futebol.

Essas são algumas das questões a serem estudadas e investigadas mais profundamente na maneira de captar e formar novos talentos.

Bibliografia

Paoli, P.B.: Os Estilos de Futebol e os Processos de Seleção e Detecção de Talentos. Rio de Janeiro; 2007. [Dissertação de Doutorado – Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física da Universidade Gama Filho].